O primeiro turno das eleições gerais, realizado em 02/10/2026 tem sido monitorado de perto pelos investidores, sobretudo nos setores de energia elétrica e saneamento. Embora a pauta de concessões e as políticas setoriais não dependam diretamente do resultado, a percepção de que a oposição – representada por Flávio Bolsonaro – consiga vencer pode gerar uma queda nos juros de longo prazo, elemento crucial para empresas intensivas em capital.
Um analista de utilities destacou: “Se a oposição vencer, o mercado vai acreditar num ajuste fiscal, e o setor é muito sensível ao juro longo.” Essa expectativa cria um cenário em que as distribuidoras, que dependem de financiamento barato para investimentos de expansão, podem registrar alta nas bolsas já na segunda-feira, caso a apuração favoreça Flávio.
Reação diferenciada entre as empresas de utilities
Entre as companhias que podem registrar ganhos, os analistas citaram a Energisa focada em distribuição de energia, e a Equatorial que combina operações de energia e saneamento. A Sabesp gigante do saneamento em São Paulo, também está na lista, assim como a geradora de energia renovável Auren cuja alta alavancagem a torna mais sensível a variações de juros. Outro nome que pode se destacar é a transmissora Alupar principalmente se os contratos de concessão forem de longo prazo.
Um segundo analista explicou a lógica defensiva desses setores: “Como energia e saneamento são mais defensivos e têm menos volatilidade de forma agregada, eles deveriam andar menos pros dois lados. Dito isso, existem single names dentro destes setores que podem ser mais sensíveis para cima ou para baixo.” Assim, ativos com concessões extensas – por exemplo, aqueles cujo prazo ultrapassa duas décadas – tendem a reagir mais intensamente a alterações nas taxas de juros, já que seu custo de capital está diretamente atrelado ao ambiente de crédito.
Impacto de uma vitória de Lula e a perspectiva de juros
No cenário em que o petista Luiz Inácio Lula da Silva – ou Lula – saia vitorioso, a reação das utilities pode ser diferente. Analistas apontam que papéis com duration baixa e alavancagem reduzida podem se sobressair, bem como as transmissoras, vistas como refúgio seguro. Mesmo assim, os papeis de energia e saneamento ainda têm potencial para outperformar o mercado no curto prazo devido ao seu caráter defensivo.
Entretanto, o UBS ressalta a grande incerteza sobre a política fiscal futura, principalmente em uma eleição tão competitiva. Após consultas com consultores externos, o banco alertou que “investidores podem estar esperando um grau maior de disciplina fiscal do que os incentivos da política brasileira naturalmente encorajam”. Em outra declaração, o UBS acrescentou que “futuras administrações de qualquer orientação ideológica provavelmente enfrentarão restrições políticas significativas ao tentar implementar ajustes fiscais”.
Contexto macroeconômico e recursos estratégicos do Brasil
Além das variáveis eleitorais, o Brasil possui fundamentos estruturais que influenciam a avaliação dos investidores. Em agosto a Petrobras anunciou a descoberta de petróleo na Margem Equatorial considerada a província de crescimento mais rápido do mundo. A mesma nação já produz cerca de 89% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, principalmente hidrelétricas, com expansão constante de energia eólica e solar que muitas vezes supera a capacidade de absorção da rede.
Essa abundância energética, aliada a reservas significativas de terra rara – a segunda maior do planeta – coloca o Brasil como alvo de investimentos estrangeiros. No último ano, o país recebeu US$ 77 bilhões em investimento direto, superando a Índia e ficando atrás apenas da China. Esse fluxo de capital pode gerar maior demanda por projetos de infraestrutura, reforçando a importância de juros estáveis e de políticas fiscais previsíveis para o setor de utilities.
Enquanto a vitória de Flávio pode acelerar a queda dos juros e impulsionar ações específicas, um triunfo de Lula pode favorecer papéis de menor risco e criar um ambiente de estabilidade mais cautelosa. O que parece certo é que o mercado continuará atento às declarações do Supremo Tribunal Federal e às orientações de grandes bancos, como o UBS, para calibrar suas estratégias nos próximos dias.



