O mercado brasileiro de ETFs (ou Exchange Traded Funds) vive um momento de aceleração sem precedentes. No segundo trimestre de 2026, o número de investidores pessoa física que operam nesses fundos subiu de 639 mil para 862 mil, o que representa um salto de 34% em apenas um ano. Esse ritmo supera de longe o de outros produtos de renda fixa e renda variável, reforçando a crescente confiança dos pequenos investidores em veículos negociados em bolsa.
Crescimento expressivo dos ETFs entre investidores pessoa física
Além da elevação no número de CPFs, o volume sob custódia dos participantes individuais avançou 62%, passando de R$ 21,6 bilhões para R$ 35,1 bilhões. O saldo médio por pessoa física aumentou levemente, de R$ 3 mil para R$ 3,2 mil, sinalizando que, embora mais investidores estejam entrando, a maioria ainda aloca valores modestos. Quando comparados a outros ativos, os ETFs lideraram o ranking de crescimento: Tesouro Direto subiu 16%, fundos listados 15%, ações à vista 8% e dívida corporativa 7%. Produtos como BDRs, CDB/RDB e derivativos registraram retrações, evidenciando a preferência por instrumentos com custos reduzidos e transparência.
Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes da B3, atribui esse movimento a uma mudança de postura dos assessores, que passaram a atuar como consultores focados na alocação total da carteira, e não apenas na venda de produtos isolados. Ele ainda destaca que, segundo a Anbima, há cerca de R$ 9 trilhões nas mãos de investidores individuais, grande parte ainda guardada na caderneta de poupança. Quando surgem alternativas mais eficientes, como os ETFs o fluxo naturalmente migra para essas opções.
Projeções para ETFs de renda fixa e novas fronteiras de mercado
Os ETFs de renda fixa têm metas ambiciosas. Bruno Stein, diretor executivo da Galapagos Capital, projeta que o patrimônio desses fundos pode alcançar R$ 1 trilhão em até cinco anos, excluindo os títulos isentos de imposto de renda. Atualmente, o universo total de ETFs supera os R$ 100 bilhões, com a maior parte ainda concentrada em ETFs de títulos públicos. O único fundo de crédito privado já listados, o DEBB11 do BTG Pactual, acompanha um índice de debêntures e demonstra que há demanda latente por produtos mais sofisticados.
Eduardo Arraes, sócio da BTG Pactual Asset, acredita que o próximo ciclo trará ETFs focados em operações AAA, high-yield, setores específicos e até em infra-estrutura isenta de tributação. A liquidez ainda limitada do mercado de crédito brasileiro é o principal obstáculo, pois impede estratégias que exigem maior profundidade de negociação. Contudo, a criação de ETFs pode gerar preços mais transparentes e atrair recursos que, atualmente, permanecem em fundos abertos ou em títulos individuais.
Desafios regulatórios e tributários que limitam a expansão
Apesar do entusiasmo, o setor enfrenta barreiras importantes. No Brasil, apenas ETFs de gestão passiva são autorizados; os de gestão ativa, que permitem ao gestor selecionar ativos de forma discrecionária, ainda não têm respaldo regulatório. Daniel Maeda, diretor jurídico da B3, defende que a liberação desses veículos ampliaria a gama de estratégias disponíveis e impulsionaria o crescimento da indústria.
Do ponto de vista fiscal, os ETFs de renda fixa sofrem uma tributação escalonada – 25% para carteira média até 180 dias, 20% entre 181 e 720 dias e 15% acima de 720 dias – enquanto os de renda variável pagam uma alíquota fixa de 15%. Essa estrutura penaliza fundos que buscam exposição a crédito de longo prazo, como os que investiriam em debêntures AAA, tornando-os menos atrativos. Filipe de Deus, especialista tributário da B3, aponta que uma revisão dessas regras seria crucial para alinhar a carga fiscal ao caráter de investimento de longo prazo desses produtos.
Especialistas internacionais, como Joseph Markovitch da VettaFi e Rohan Reddy da Global X, enxergam no Brasil um grande potencial para replicar a trajetória norte-americana, onde os ETFs ultrapassaram US$ 10 trilhões em ativos sob gestão e passaram a ser usados para estratégias temáticas, geração de renda e acesso a mercados globais. Se as questões regulatórias e tributárias forem sanadas, o país poderá criar um ecossistema de ETFs tão robusto quanto o de seus pares desenvolvidos.



