Nos próximos 20 a 30 anos o mundo vivenciará a maior transferência de riqueza jamais registrada. Estimativas apontam que cerca de US$ 90 trilhões acumulados pelos baby boomers e pela chamada Geração X deverão se transformar em herança. Segundo o UBS um quinto dos ativos globais está hoje nas mãos de pessoas com mais de 75 anos, o que sinaliza uma enxurrada de atos de liquidez e desafios sucessórios ainda não totalmente compreendidos.
O panorama da transmissão de patrimônio
Esses trilhões não se restringem a contas bancárias; grande parte pertence a famílias empresárias que controlam conglomerados, bancos e outras instituições. Quando o patriarca ou a matriarca decide se retirar, o “legado” vai muito além de uma cadeira vazia: envolve empresas, marcas, empregos e influência. A pressão para transformar esse capital em dinheiro imediato gera atos de liquidez – venda de participações ou retirada de ativos – muitas vezes feita por herdeiros que nunca participaram da gestão.
Falhas recorrentes ao escolher “o” sucessor
Marcia Dolores, fundadora da Mardô Family House Integration alerta que o erro mais frequente das famílias ricas é buscar “o” sucessor ideal baseado em semelhanças pessoais com o titular que está saindo. “É um erro colocar o foco em achar a pessoa ideal, sem considerar que existem mil possibilidades dentro de um núcleo familiar”, afirma. Em sua carreira de três décadas – passando por VotorantimBTG PactualC6 e Banco Cidade (da família Safdié, vendido ao Bradesco em 2002) – ela observou que muitas famílias escolhem um herdeiro que “é como eu”, ignorando habilidades e aspirações diferentes.
Estudos internos da Mardô, baseados em mais de 200 projetos de vida de jovens entre 19 e 25 anos, revelam que 55 % da Geração Z deseja participar do negócio familiar porém com maior liberdade e menos carga de responsabilidade. Ainda assim, a maioria ainda vê a riqueza como um peso que pode ser “depreciado” rapidamente se não houver governança apropriada.
O papel marginalizado das mulheres
Um levantamento adicional mostra que 87 % das mulheres que são esposas ou herdeiras em famílias de altíssimo patrimônio não participam ativamente das decisões estratégicas. Essa exclusão costuma estar ligada a crenças “inconscientes” de que o ambiente corporativo familiar seria demasiado pesado para elas. Marcia ressalta que, embora não precisem ocupar cargos executivos, é essencial que conheçam os números, a estrutura de dividendos e os mecanismos de distribuição para exercerem um controle significativo.
Estratégias para preparar herdeiros e evitar a perda de valor
Para evitar que os trilhões de dólares se dispersem em vendas precipitadas, as famílias devem adotar uma abordagem multifacetada. Primeiro, é preciso mapear potenciais sucessores que tenham inclinação executiva, visão empreendedora ou perfil de investidor passivo, dando espaço a cada perfil. Segundo, a educação precoce se mostra eficaz: a família Votorantim, por exemplo, introduz conceitos de herança e responsabilidade a partir dos cinco anos de idade, usando metodologias lúdicas adaptadas à faixa etária.
Outro caso ilustrativo é o da família Moreira Salles, que incorporou jovens de 12 anos nas discussões sucesórias, permitindo que imaginem seu futuro dentro da empresa. Essa prática cria conexão emocional e reduz a tendência de busca por liquidez imediata.
Por fim, a inclusão de membros que seguem caminhos diferentes – como o descendente de uma família de produtores de arroz que se tornou artista e hoje recebe dividendos enquanto desenvolve um negócio cultural – demonstra que diversificar papéis pode revitalizar o legado e atrair a nova geração.
Em síntese, a grande transferência de US$ 90 trilhões exige mais que um simples plano de substituição de cargos. É preciso reconhecer a pluralidade de talentos dentro da família, promover a educação precoce, integrar as mulheres ao debate estratégico e alinhar os valores da geração Z, que prioriza espiritualidade e propósito antes do dinheiro. Só assim o patrimônio poderá sobreviver e crescer ao longo dos próximos séculos.



