Durante a reunião na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente dos Estados Unidos e o líder chinês firmaram uma série de entendimentos que prometem aliviar a longa guerra comercial entre as duas potências. Entre os pontos principais, está a criação de um Conselho de Investimentos bilaterais, a retirada parcial de tarifas sobre produtos de cerca de US$ 30 bi e a retomada das conversas sobre terras raras minerais críticos para defesa e tecnologia avançada. As declarações também tocaram em temas de segurança internacional, como o programa nuclear do Irã e a estabilidade marítima.
A iniciativa de abrir um canal institucional para investimentos tem como meta identificar oportunidades conjuntas e remover barreiras burocráticas que atrapalham negócios transnacionais. O conselho reunirá representantes de ambas as economias a cada trimestre, permitindo que empresas de tecnologia médicacosméticos e agroindústria explorem novos mercados. Ao mesmo tempo, os dois países se comprometeram a manter um diálogo permanente sobre os riscos associados à inteligência artificial criando um mecanismo específico para tratar incidentes que possam surgir.
Redução de tarifas e criação de conselho de investimento
A retomada das negociações tarifárias inclui a eliminação de impostos sobre mercadorias consideradas “não sensíveis”, como produtos agrícolas norte-americanos, peixes e frutos do mar além de madeira e dispositivos médicos. Em contrapartida, a China cederá nas taxas sobre eletrônicos, brinquedos, decorações de festas e cadeirinhas infantis para automóveis. O acordo também prevê a suspensão, por um ano, das cobranças portuárias que os EUA impuseram a navios chineses e que a China retribuiu contra embarcações americanas, facilitando o fluxo logístico entre os dois mercados.
Para o setor empresarial, a criação do Conselho de Investimentos representa um avanço significativo, já que antes as discussões eram conduzidas de forma informal e fragmentada. Agora, investidores poderão contar com um canal estruturado para apresentar projetos, analisar obstáculos regulatórios e explorar parcerias estratégicas. Essa medida deve estimular fluxos de capital, sobretudo em áreas como energia limpa e biotecnologia que têm grande potencial de crescimento nas duas economias.
Terras raras: o ponto crítico da negociação
Dependência dos EUA e papel da China
As terras raras permanecem no epicentro das divergências comerciais. A China controla cerca de 70 % da extração mundial e 90 % do refino, usando esse domínio como alavanca nas negociações. Apesar dos esforços norte-americanos – que incluíram bilhões de dólares em subsídios a empresas como MP Materials e USA Rare Earth – a capacidade interna dos EUA ainda cobre menos da metade da demanda interna, especialmente para os minerais pesados usados em aplicações militares.
Oportunidades para o Brasil
O Brasil possui reservas consideráveis de terras raras porém ainda tem participação reduzida nas fases de processamento e de produção de ligas avançadas. O interesse americano em diversificar fornecedores abre espaço para investimentos estrangeiros em projetos de mineração e refino brasileiros. Recentes acordos bilaterais podem acelerar a abertura de linhas de crédito e parcerias técnicas, favorecendo a construção de uma cadeia de suprimentos menos dependente da China.
Repercussões para agricultura e tecnologia brasileiras
Soja e mercado chinês
A soja ocupa centro estratégico nas discussões comerciais, já que a China é o maior comprador mundial. O acordo previa que Pequim adquira 25 milhões de toneladas de soja americana até 2028 e mantenha compras de produtos agrícolas dos EUA superiores a US$ 17 bi por ano nos próximos três anos. Esse impulso pode aumentar a concorrência nas exportações brasileiras, pressionando os produtores a melhorar preços e eficiência logística, ao mesmo tempo em que oferece ao Brasil oportunidades de posicionar sua produção como alternativa complementária.
Inteligência artificial e chips
Nos últimos anos, os chips avançados e as tecnologias de inteligência artificial têm sido alvo de restrições americanas ao mercado chinês. O novo diálogo criado entre Washington e Pequim pretende estabelecer regras claras para incidentes envolvendo IA, ao mesmo tempo em que busca evitar uma escalada de sanções. Para o Brasil, cuja indústria de fabricação de componentes ainda está em fase emergente, essas discussões podem abrir portas para cooperações tecnológicas e investimentos em fábricas de semicondutores, reduzindo a vulnerabilidade a políticas protecionistas.



