O senador Flávio Bolsonaro acabou de colocar em evidência duas frentes que vão definir sua campanha: a retomada da ferrovia Ferrogrão e um pacote de contenção de despesas públicas. Ambos os tópicos giram em torno de um ponto central – a disponibilidade de recursos estatais. Enquanto a primeira demanda investimentos na ordem de dezenas de bilhões de reais, a segunda promete recortes que, segundo o concorrente, afetariam principalmente programas sociais.
Para quem não está habituado ao jargão de infraestrutura, a expressão greenfield indica a construção de um projeto do zero, sem nenhum ativo pré-existente. No caso da Ferrogrão, que ligaria Sinop (MT) ao porto de Miritituba, em Itaituba (PA), a estimativa de custos chega a R$ 35 bilhões, segundo o especialista Daniel Keller, sócio da consultoria Una Partners. Essa cifra supera largamente o cálculo oficial da ANTT, que aponta R$ 21 bilhões. O diferencial está no volume de aporte público que, segundo Keller, precisaria variar entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões, muito acima dos R$ 5 a 7 bilhões atualmente discutidos no Congresso.
Custo real da Ferrogrão e a necessidade de financiamento público
A construção de ferrovias no Brasil costuma custar cerca de R$ 30 milhões por quilômetro, o que equivale a R$ 30 bilhões para cada mil quilômetros de pista. O trecho proposto pela Ferrogrão tem aproximadamente 1.200 km, o que eleva o montante total para algo próximo dos R$ 36 bilhões. Keller ressalta que, em projetos greenfield os investidores privados hesitam diante de um horizonte de retorno que pode ultrapassar oito anos sem arrecadar qualquer receita. Sem o apoio estatal, a iniciativa corre o risco de permanecer travada nos corredores dos tribunais.
Além do investimento direto, há ainda a questão da demarcação ambiental. O STF já autorizou a alteração dos limites do Parque Nacional do Jamanxim, permitida para a via férrea, mas a ANTT ainda precisa avançar com o processo de concessão. Se o caminho burocrático for concluído, ainda resta a dúvida sobre a viabilidade de alternativas mais baratas, como a extensão da Ferrovia Norte-Sul até o porto de Vila do Conde (PA), cujo custo estimado seria de R$ 10 bilhões – menos de um terço do valor da Ferrogrão.
Propostas de austeridade: quem paga o “tesouraço”?
Ao mesmo tempo, a equipe econômica de Flávio Bolsonaro tem divulgado um plano para reduzir os gastos federais em até R$ 250 bilhões, o que representa cerca de 2% do PIB. A estratégia inclui a desvinculação de gastos com saúde, educação e programas de assistência social da receita do governo, bem como a revisão de reajustes de benefícios previdenciários e do salário-mínimo. Apesar das negativas oficiais da campanha sobre um corte real em benefícios, os números apontam que, nos últimos 12 meses, o aumento da despesa federal atingiu R$ 238,5 bilhões, dos quais R$ 131 bilhões foram obrigatórios por causa de benefícios sociais.
Segundo a própria análise de economistas, conter esse crescimento sem cortar efetivamente o gasto social seria arriscado: a maioria dos gastos obrigatórios – saúde, educação, previdência e benefícios auxiliares – responde por mais de 90% do total primário. Qualquer tentativa de “corte mascarado” teria de operar sobre o que os críticos chamam de gasto tributário ou seja, a eliminação de isenções e incentivos fiscais – medida que colide com a promessa de não aumentar impostos feita por Flávio Bolsonaro.
Impactos potenciais nos programas sociais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou que, se a proposta de “tesouraço” fosse implementada, os alvos mais vulneráveis – como o programa Pé-de-MeiaFarmácia PopularMinha Casa, Minha Vida e a merenda escolar – seriam os primeiros a sentir os efeitos. Esses são exatamente os setores que a Argentina viu sofrer sob a agenda de austeridade do presidente Javier Milei, cuja ação desencadeou um retrocesso econômico e aumento da pobreza. Economistas brasileiros já apontam riscos semelhantes para o Brasil, caso a política de redução de gastos se concretize sem alternativas compensatórias.
Em síntese, a viabilidade da Ferrogrão depende, quase que exclusivamente, de um aporte estatal robusto, enquanto o plano de contenção fiscal proposto por Flávio Bolsonaro pode gerar um efeito cascata sobre os programas de assistência que sustentam milhões de brasileiros. O debate que se desenha nas próximas semanas terá, portanto, duas faces interligadas: a capacidade do governo de financiar grandes obras de infraestrutura e a disposição de comprometer direitos sociais em nome da suposta racionalização das contas públicas.



