Em um painel realizado em São Paulo, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, apontou que o país possui recursos energéticos ainda subutilizados e que podem ser o alicerce de um novo polo tecnológico. Segundo ele, a combinação de energia elétrica abundante com políticas menos onerosas pode colocar o Brasil entre os principais destinos para a instalação de data centers e projetos de inteligência artificial.
Alban ressaltou que a maioria das grandes regiões do planeta está atualmente rejeitando propostas de data centers por questões relacionadas à oferta energética. “Temos energia sobrando, mas precisamos torná-la firme”, declarou, indicando que a estabilidade da geração será decisiva para que investidores estrangeiros considerem o território nacional como opção viável.
Excesso de energia como motor para data centers e IA
O Brasil registra, em diversas regiões, capacidade instalada que supera a demanda imediata, gerando o que o mercado chama de “energia excedente”. Esse cenário cria um ambiente propício para cargas críticas que requerem consumo constante e de alta densidade, como os servidores que alimentam data centers. Alban destacou que, ao garantir um fornecimento firme o país poderia oferecer tarifas competitivas e, ao mesmo tempo, otimizar o uso de recursos que hoje se dissipam.
Um exemplo prático citado foi o de empresas chinesas que operam na zona de curtailment – situação em que a energia produzida é temporariamente reduzida por questões de rede. Essas companhias direcionam a energia disponível para a mineração de criptomoedas aproveitando um consumo elevado sem comprometer a estabilidade do sistema elétrico. Alban sugeriu que, igualmente, o Brasil poderia canalizar seu excedente para tecnologias de inteligência artificial e para a expansão de data centers gerando empregos qualificados e receitas de exportação de serviços digitais.
O que é curtailment?
O termo curtailment refere-se à prática de reduzir temporariamente a produção de energia renovável para manter o equilíbrio da rede elétrica. Quando há mais geração do que consumo, os operadores podem interromper parte da produção para evitar sobrecarga. Essa energia “sobrante”, porém, pode ser aproveitada por processos que toleram interrupções curtas, como a mineração de cripto-ativos, transformando um problema em oportunidade.
Burocracia e custo Brasil: obstáculos à competitividade
Apesar do cenário promissor, Alban alertou que a chamada Custo Brasil — conjunto de encargos tributários, regulatórios e processuais que encarecem a realização de projetos — ainda representa um empecilho significativo. Ele explicou que a burocracia excessiva eleva o custo final das instalações, reduzindo a atratividade frente a concorrentes como México ou países do Leste Europeu, onde o ambiente regulatório é mais ágil.
Para contornar esses entraves, o presidente da CNI propôs a simplificação de licenças ambientais, a desburocratização de autorizações de conexão à rede e a criação de incentivos fiscais específicos para setores de alta demanda energética. Segundo ele, tais medidas poderiam alinhar o “excesso de energia” brasileiro com a “necessidade de energia firme”, criando um ciclo virtuoso de investimentos que geraria valor econômico e tecnológico para o país.



