Pular para o conteúdo
5 novembro 2026

Camada romântica do pig butchering custa mais de R$ 2,6 milhões

Casos de romance digital e cripto deixam homens brasileiros sem metade da fortuna em poucos meses

Camada romântica do pig butchering custa mais de R$ 2,6 milhões

Uma pesquisa inédita realizada por um escritório de advocacia especializado identificou 112 petições iniciais relacionadas a fraudes com criptomoedas no Brasil. Dentre elas, 24 configuraram o conhecido pig butchering, esquema que combina engodo financeiro e manipulação afetiva. O foco da análise recaiu em 11 processos nos quais a abordagem foi claramente romântica, revelando um padrão alarmante de perdas e perfis de vítimas.

Todos os lesados eram homens, totalizando um prejuízo estimado em US$ 500 mil (mais de R$ 2,6 milhões). Oito dos dezesseis estavam casados, dois eram solteiros e um constava como divorciado nos documentos judiciais. As profissões variavam bastante: três servidores públicos, dois trabalhadores do setor de transporte e representantes de áreas como engenharia, saúde, indústria, vendas, finanças e empresariado. As perdas individuais oscilaram entre US$ 10 mil e US$ 500 mil, sendo que um engenheiro casado experimentou o maior rombo.

Como a cilada se desenvolve nas redes sociais

O ponto de partida da maioria das fraudes foi o Telegram, onde oito das onze abordagens tiveram início. Os demais casos surgiram no Instagram, WhatsApp e em uma rede não especificada. Depois de alguns dias, as vítimas eram transferidas para o WhatsApp – um movimento estratégico para fugir da vigilância das plataformas que mais denunciam perfis falsos. Em seis das petições, as golpistas adotaram identidades femininas de origem asiática, usando nomes como Amelia, Emilia, Clara, Daisy e Chun Kai (também apresentado como Emily).

Roteiro de conquista e promessas de ganho

Os impostores mantinham contato diário, exibindo um estilo de vida luxuoso – academias, lojas de grife e viagens – de forma a criar vínculo emocional. O relacionamento evoluía ao longo de duas semanas a três meses, quando surgiam sugestões de investimento em criptomoedas ou em plataformas supostamente recomendadas por parentes fictícios, como um “tio analista de Wall Street” com duas décadas de experiência. Em quatro episódios, o mentiroso se apresentava como parte de uma equipe de 28 profissionais, reforçando a credibilidade falsa.

Transferência de recursos via Pix e stablecoins

Seguindo instruções detalhadas, as vítimas compravam a stablecoin USDT (e, em casos pontuais, Ethereum) por meio do Pix em corretoras legítimas. Depois, enviavam os tokens para carteiras externas apresentadas como “seguras”. Painéis falsos mostravam lucros simulados, levando dois investidores casados – um da área de saúde e outro de finanças – a contrair empréstimos bancários e esgotar limites de crédito. Quando tentavam retirar o saldo, o sistema bloqueava o saque e cobrava supostas taxas de liberação, validação de conta ou tributos internacionais.

Sinais de alerta e recomendações

Investigações apontaram duas carteiras que desembocaram em contas da corretora HTX. Domínios como , , brrcc.top, trx.art, , , e foram registrados poucos meses antes de desaparecerem. Um caso emblemático envolveu um empresário solteiro que foi isolado socialmente, proibido de conversar com amigos e acusado de atrapalhar os planos de um suposto tio após recusar pagar um empréstimo interno. O estudo conclui que nenhuma plataforma respeitável exige pagamento antecipado de impostos para liberar saques e alerta para a prudência ao aceitar propostas de negócios milionários de estranhos nas redes sociais.