Por décadas, o CDI foi o porto seguro dos investidores brasileiros, oferecendo uma combinação única de liquidezbaixo risco e juros reais positivos. Em um cenário de inflação elevada e instabilidade cambial esse instrumento financeiro se tornou essencial para a preservação do patrimônio.
No entanto, o que começou como uma solução transformou-se em um custo de oportunidade significativo. A preferência por investimentos atrelados ao CDI tem inibido o financiamento de empresasinfraestrutura e projetos de longo prazo limitando o crescimento econômico.
O CDI e a dívida pública brasileira
Um dos efeitos mais preocupantes da dependência do CDI é sua influência na dívida pública. Em diferentes momentos, mais de 40% da dívida pública brasileira esteve indexada à Selic. Essa situação agrava-se em cenários de expansão de gastos públicos e risco fiscal pois cada alta da Selic aumenta imediatamente o custo da dívida.
A preferência por títulos pós-fixados dificulta a emissão de dívida prefixada ou indexada à inflação de longo prazo, perpetuando um ciclo vicioso. O remédio, que antes era uma consequência da fragilidade fiscal, tornou-se parte do próprio problema.
O risco da concentração de patrimônio em moeda local
O maior perigo da dependência do CDI reside na concentração de patrimônio em moeda local. Enquanto o CDI sobe diariamente, essa concentração transmite uma sensação de segurança. No entanto, uma deterioração da confiança fiscal pode levar a uma desvalorização cambial abrupta, destruindo parte significativa do poder de compra acumulado.
Exemplos históricos, como a maxidesvalorização do real em 1999 o ataque especulativo à libra esterlina em 1992 e as crises cambiais da Turquia demonstram que a rentabilidade nominal não equivale à preservação de riqueza.
O caso da Argentina
Na Argentina, um investidor que terminou 2001 com o equivalente a US$ 1 milhão em pesos e manteve seus recursos aplicados à taxa básica de juros local teria encerrado 2002 com aproximadamente 1,39 milhão de pesos. No entanto, após a desvalorização cambial, esse patrimônio representaria apenas cerca de US$ 415 mil uma perda de aproximadamente 59% do poder de compra internacional em apenas um ano.
Levando o mesmo exercício até 2026 o patrimônio equivaleria a aproximadamente US$ 282 mil demonstrando a vulnerabilidade de depender exclusivamente de ativos em moeda local.
A falsa sensação de segurança
O CDI foi tão eficiente em proteger o patrimônio em moeda local que convenceu o investidor brasileiro de que não precisava diversificar seus riscos entre diferentes classes de ativos, países e moedas. Essa falsa sensação de segurança pode levar a perdas significativas em cenários de crise fiscal ou desvalorização cambial.
Construir patrimônio não significa vencer o CDI todos os meses. Significa preservar e ampliar o poder de compra durante décadas, diversificando investimentos e reduzindo a dependência de um único instrumento financeiro.
Renan Rego é sócio e CIO da G5 Partners.



