O universo dos fundos negociados em bolsa mudou de figura: os ETFs de renda fixa passaram a ocupar papel central entre os investidores brasileiros, totalizando R$ 51 bilhões aplicados. Lançados em 2019, esses produtos já têm patrimônio superior ao dos ETFs de ações locais, que somam R$ 36 bilhões — ou R$ 55 bilhões se incluídas as cotas de ações no exterior. Esse avanço chamou atenção porque, enquanto o patrimônio total de ETFs no país dobrou no período, os ETFs de renda fixa se multiplicaram por quase seis em relação a dezembro de 2026.
Esse crescimento não se resume apenas à atratividade dos juros: há fatores estruturais que ajudaram a canalizar recursos para esses fundos. Entre eles estão a facilidade operacional desses produtos para tesourarias institucionais, a maior clareza sobre aspectos tributários e a disseminação do modelo de remuneração dos assessores, que tem alterado recomendações e mudado o comportamento do investidor.
Fatores que impulsionaram a adoção
O primeiro motivo é evidente: a combinação de rendimento real atrativo e liquidez de títulos públicos tornou os ETFs lastreados em LFTs uma alternativa prática para aplicar caixa. Mas avaliações de mercado apontam que a adoção do modelo fee-based — em que o assessor é remunerado pelo cliente e não por comissões sobre produtos — acelerou a recomendação desses instrumentos. Com taxas de venda baixas e maior neutralidade na sugestão de produtos, assessores passaram a explicar melhor as vantagens fiscais e operacionais dos ETFs, estimulando a entrada tanto de pessoas físicas quanto de instituições.
Outra vantagem apontada pelos agentes é a simplicidade operacional: muitos gestores institucionais usam esses ETFs para ajustar posições de caixa no curto prazo sem precisar lidar com várias emissões de títulos. Essa praticidade explica por que alguns dos maiores ETFs do segmento são voltados a investidores institucionais, com estrutura e liquidez pensadas para atender operações de grande volume.
Tributação e classificação dos produtos
LFTs e a alíquota de 25%
Uma questão chave que causou dúvidas até 2026 foi a classificação fiscal dos ETFs que investem majoritariamente em LFTs — os títulos atrelados à variação diária da Selic. A Secretaria do Tesouro Nacional definiu que muitos desses fundos deveriam ser enquadrados como curto prazo, com alíquota de 25% sobre o ganho, acima dos 22,5% que quem compra títulos públicos diretamente costuma pagar. Essa definição mudou a percepção sobre custo fiscal desses ETFs e levou administradores a ajustar carteiras e a lançar produtos com estrutura tributária otimizada.
Como alcançar a alíquota de 15%
Por outro lado, ETFs que combinam papéis prefixados e indexados à inflação, de forma que o prazo médio da carteira supere 720 dias, passam a ser tributados a 15%. Essa regra incentivou gestores a projetar composições que elevem o prazo médio do produto para obter tratamento fiscal mais favorável. Um exemplo prático é o LFTB11, que alocou parte do portfólio em NTN-B 2060 para manter o prazo médio em torno de 760 dias e, assim, enquadrar-se na alíquota reduzida.
Quem captura o fluxo e quais são os limites
Entre os protagonistas desse movimento estão grandes gestoras e produtos institucionais. O BLFT11, gerido pelo Bradesco, concentra cerca de R$ 10 bilhões só em LFTs e é procurado por tesourarias que precisam ajustar caixa. A gestora Investo registrou salto no AuM, saindo de R$ 1,8 bilhão em janeiro de 2026 para aproximadamente R$ 10 bilhões recentemente, apoiada pela demanda por renda fixa via ETFs. A XP lançou oito ETFs de renda fixa nos últimos seis meses, uma demonstração de como o mercado varejista também foi atingido pela novação desses produtos.
Apesar da empolgação, há limites: a taxa média de administração dos ETFs de renda fixa gira em torno de 0,25%, o que pode ser mais caro que fundos exclusivos para clientes de alta renda. Gestores de patrimônio observam que, dependendo do perfil, fundos tradicionais ainda podem oferecer custo-benefício melhor. Além disso, a criação de ETFs de crédito privado esbarra na indefinição tributária — discussão em curso entre Anbima e o Tesouro sobre se esses produtos terão alíquota de 15% ou 25%. Alguns gestores, como os da XP, mantêm produtos pré-operacionais aguardando clareza regulatória antes do lançamento.
Panorama e perspectivas
O crescimento dos ETFs de renda fixa reflete uma combinação de mercado: juros elevados, desenho tributário e evolução na forma de remuneração de assessores. Se as taxas de administração caírem com a expansão do mercado, a atratividade pode aumentar ainda mais, aproximando-se de patamares internacionais muito baixos. Porém, a consolidação dependerá de decisões regulatórias sobre tributação e da capacidade das gestoras de equilibrar custo, liquidez e prazo médio das carteiras. Para investidores e instituições, a recomendação é avaliar cenário tributário, horizonte e custos antes de migrar recursos para esses produtos.
