O mercado brasileiro de ETFs vem registrando uma transformação significativa: os produtos de renda fixa alcançaram R$ 51 bilhões em AuM, um salto que é quase seis vezes o patrimônio registrado em dezembro de 2026. Esse avanço supera em ritmo o crescimento agregado dos ETFs no País, que dobrou no mesmo período. Apesar de juros elevados terem criado um cenário favorável, a história por trás desse crescimento é multifacetada, envolvendo tributação, mudanças na distribuição e a busca de alternativas para o caixa por parte de investidores institucionais.
Por que os ETFs de renda fixa atraem tantos recursos
Uma razão importante é operacional: muitos gestores e tesourarias corporativas têm recorrido aos ETFs para gerir o caixa com praticidade. O maior produto do segmento, o BLFT11 da Bradesco Asset, concentra cerca de R$ 10 bilhões em LFTs e foi concebido pensando em clientes institucionais que precisam de liquidez e simplicidade na execução diária. Além disso, os ETFs oferecem vantagens tributárias e de transparência que passaram a ser melhor comunicadas aos investidores à medida que o modelo fee-based ganhou tração entre assessores.
O modelo fee-based — no qual o assessor é remunerado diretamente pelo cliente em vez de receber comissões por venda de produtos — tem estimulado profissionais a explicarem benefícios como a ausência de come-cotas e de IOF nos primeiros 30 dias de aplicação, em comparação com fundos tradicionais. Essa mudança de incentivo ajudou a popularizar os ETFs entre investidores pessoa física e instituições que antes tinham menos contato com o formato.
O papel decisivo da tributação e do prazo
Nem toda a expansão se deve à Selic. Em 2026, a Secretaria do Tesouro Nacional esclareceu como deveriam ser classificadas as carteiras compostas predominantemente por LFTs: foram enquadradas como curto prazo e sujeitas a uma alíquota de 25% para IR, acima do teto de 22,5% aplicado a quem compra títulos públicos diretamente. Esse entendimento levou gestores a reestruturarem produtos e a lançar novos ETFs buscando eficiência fiscal.
Estratégias para reduzir a carga de imposto
Uma saída adotada por alguns ETFs foi alongar o prazo médio da carteira para acima de 720 dias — nesse caso, a alíquota de IR cai para 15%. Foi o que motivou mudanças em veículos como o LFTB11, que passou a alocar cerca de 8% em NTN-B 2060 para elevar o prazo médio para aproximadamente 760 dias. O ajuste tributário tornou esses ETFs mais atrativos para quem compara direto com a compra de títulos isolados.
Impacto para gestoras, investidores e produtos futuros
O movimento foi sentido em diversas gestoras: a Investo, especializada em ETFs, viu seu AuM saltar de R$ 1,8 bilhão em janeiro de 2026 para R$ 10 bilhões até a data da publicação. A XP lançou oito ETFs de renda fixa nos seis meses anteriores, com carteiras que incluem títulos pós-fixados, prefixados e atrelados à inflação — produtos que capturaram a atenção de clientes em busca de alternativas tributárias aos fundos exclusivos.
Apesar da rápida ascensão, nem todos os perfis saem ganhando automaticamente. A taxa de administração média dos ETFs de renda fixa está em torno de 0,25%, superior à de alguns fundos destinados à alta renda, o que diminui a vantagem para clientes com grandes patrimônios. Gestores de patrimônio apontam que, se a base de investidores continuar a crescer, as taxas podem eventualmente cair, possivelmente aproximando-se dos níveis observados em mercados mais maduros, onde certas ETFs chegam a cobrar 0,03%.
Oferta de crédito privado e incertezas regulatórias
Há também demanda por ETFs de crédito privado, mas o lançamento desses produtos depende de uma definição sobre a tributação — se serão tributados a 15% ou 25%. Anbima e o Tesouro discutem o enquadramento, e algumas gestoras preferem segurar produtos em pré-operação até que haja clareza regulatória. Esse impasse ilustra como decisões fiscais podem moldar rapidamente a estrutura e a velocidade de inovação no segmento.
Em suma, o avanço dos ETFs de renda fixa no Brasil resulta da combinação entre conveniência operacional, mudanças no sistema de remuneração dos assessores e ajustes tributários que gestores souberam aproveitar. Para investidores e instituições, o desafio agora é avaliar custo, tributação e adequação ao perfil antes de migrar posições tradicionais para ETFs.
