Durante a campanha para a disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou um documento intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso”. O texto, popularmente apelidado de “tesouraço” apresenta um conjunto de medidas que pretendem reduzir despesas públicas, cortar ao menos dez ministérios e desvincular a política de gastos da inflação. O objetivo declarado é gerar um crescimento sustentado de 4 % ao ano impulsionado pela atração de investimentos privados e pela retificação das contas fiscais.
O que prevê o “tesouraço” de Flávio Bolsonaro
Entre as propostas centrais, destaca-se a desvinculação de gastos com a inflação que faria com que o reajuste de salários, benefícios e do próprio salário mínimo deixasse de ser atrelado ao índice de preços. O plano ainda sugere a eliminação de pelo menos dez ministérios a redução de cargos comissionados, o combate a salários acima do teto e a digitalização de serviços públicos. No campo tributário, há a promessa de revisar a reforma em curso, simplificar a legislação e reduzir a carga sobre a produção e o consumo, sem apresentar números concretos de arrecadação ou economia esperada.
Consequências para saúde, educação e consumo interno
Ao retirar o vínculo inflacionário, a proposta pode criar um ambiente de reajuste limitado dos benefícios sociais. Isso afeta diretamente áreas como saúde e educação cujos orçamentos costumam ser corrigidos para manter o acesso universal. A professora e pesquisadora Marilane Teixeira, do Cesit-IE/Unicamp, alerta que reduzir a renda de setores mais vulneráveis – especialmente dos mais de 40 milhões de aposentados que recebem entre um e dois salários mínimos – implica menos dinheiro circulando nas ruas. Como cerca de 70 % do PIB provém do consumo interno, a diminuição da disponibilidade de recursos pode frear o ritmo de crescimento econômico.
Repercussões fiscais e risco à dívida pública
O programa propõe ainda reformular as regras fiscais para alcançar superávits primários, limitar o crédito subsidiado e estabilizar a dívida pública. Dados do Banco Central indicam que a dívida bruta totaliza 82,9 % do PIB, o maior patamar em cinco anos. Apesar da intenção de reduzir esse número, o texto não especifica metas quantitativas nem estabelece prazo para atingir o equilíbrio. A estratégia assume que a diminuição de despesas e a liberalização de crédito atrairiam investimentos, mas não detalha como a Taxa Selic atualmente em 13,75 % ao ano, evoluiria para níveis considerados “internacionais”.
Críticas de economistas e perspectivas políticas
Marilane Teixeira descreve o plano como temerário argumentando que a lógica de “cortar gastos em áreas essenciais para controlar a dívida” ignora a importância estratégica desses setores para o desenvolvimento econômico e social. Ela destaca que, com a previsão de desaceleração do crescimento nos próximos dois anos e uma alta taxa de juros, a proposta pode provocar um desaceleração do consumo interno sobretudo nas cidades menores onde a renda já é limitada. Segundo a pesquisadora, o foco em agradar o mercado financeiro deixa de lado a necessidade de esclarecer à população os riscos de um ajuste tão abrupto.
Na arena política, a proposta de Flávio Bolsonaro contrasta com a estratégia do adversário, que pretende manter o arcabouço fiscal vigente, ampliar investimentos públicos e preservar a escalada de direitos trabalhistas. Enquanto o “tesouraço” aposta em uma agenda de corte e privatização, o debate nacional gira em torno da escolha entre expansão do Estado ou restrição fiscal duas rotas que prometem caminhos muito diferentes para o futuro da economia brasileira.



