A Polícia Federal passou a apurar um possível crime contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo o ex-ministro da Economia Paulo Guedes e a empresa de investimentos em criptoativos OnilX. O inquérito, aberto em fevereiro, tramita sob sigilo na 9ª Vara Federal de Curitiba e conta com a participação do Ministério Público Federal.
Segundo documentos obtidos por investigação, no dia 7 de julho foi realizada uma transferência via PIX da conta da ActivosX Onil OTC LTDA – empresa controlada por Fábio Lino de Almeida, proprietário da OnilX – para a PG&A Consulting LTDA. Esta última possui como sócios o próprio Guedes, a esposa e a filha, e recebeu o valor de R$ 563.1 mil. A operação teria sido enquadrada como pagamento por serviços de consultoria prestados à OnilX.
Relação entre Guedes e a OnilX
O ex-ministro atuou como consultor estratégico da empresa, participando de reuniões com investidores, apresentando a marca em eventos e permitindo o uso de sua imagem em materiais promocionais. Em troca, recebia honorários por análises macroeconômicas, geopoliticas e de conjuntura econômica nacional e internacional. Mensagens internas revelam que assessoras utilizavam a presença de Guedes como argumento de credibilidade, oferecendo encontros ao cliente que pretendesse investir entre R$ 3 e 5 milhões.
Denúncias de investidores e suspeitas de pirâmide
OnilX foi acusada de deixar de pagar dezenas de investidores que haviam aplicado recursos em produtos vinculados a criptomoedas e stablecoins, com promessas de retorno mensal de até 2,8%. Entre 12 de junho e 10 de setembro, foram identificadas 108 ações judiciais contra o grupo. Muitos reclamam de impossibilidade de resgatar valores, atrasos no pagamento de rendimentos e, em alguns casos, apontam indícios de esquema de pirâmide financeira.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também se manifestou: em janeiro determinou a suspensão de ofertas públicas de serviços de intermediação de valores mobiliários pela OnilX, e em abril manteve a medida, ressaltando que a restrição não se estendia à simples compra ou venda de criptoativos que não configurassem valores mobiliários.
Posição da OnilX e do ex-ministro
Em nota oficial, a empresa afirma que o papel de Guedes limitou-se a consultoria de natureza macroeconômica, sem envolvimento direto na captação ou administração de recursos dos investidores. A empresa ainda destaca que Guedes prestou esclarecimentos à Polícia Federal na qualidade de testemunha, e não como investigado, reforçando a licitude de suas atividades e o compromisso de honrar os pagamentos devidos aos clientes.
Por sua vez, Guedes ainda não se pronunciou publicamente sobre o caso. A defesa de ambos, Guedes e Lino de Almeida, é representada pelos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso, que ainda não responderam a solicitações de comentários.
Antecedentes e outras investigações
Em novembro de 2025, a Justiça Federal do Paraná determinou a produção de provas acerca de R$ 7,8 milhões encaminhados à Onil Business, empresa vinculada ao mesmo grupo, por meio da Rental Coins, controlada por Francisley Valdevino da Silva, conhecido como “Sheik dos Bitcoins”. Embora o processo não tenha concluído por desvio de recursos, ele evidencia o histórico de transações questionáveis envolvendo a estrutura Onil.
Somado a isso, a empresa já foi citada na CPI das Pirâmides Financeiras da Câmara dos Deputados em 2023, onde se solicitou a quebra de sigilos bancário e fiscal de corretoras ligadas ao grupo, por supostos vínculos com a MSK Invest, investigada por fraude financeira.
Em síntese, o caso reúne elementos de suposta irregularidade na captação de recursos, uso da reputação de um ex-ministro para legitimar negócios de cripto, e uma série de processos judiciais que apontam para dificuldades na devolução de valores aos investidores. Enquanto as autoridades continuam a apurar os fatos, a imagem pública de Paulo Guedes permanece sob escrutínio, e a OnilX mantém a defesa de que opera dentro dos limites legais.



