Com a posse marcada para 5 de janeiro, o futuro presidente terá de enfrentar duas realidades conflituosas: a pressão incessante do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas e a crescente insatisfação da população com o custo de vida, que já registra níveis recordes de endividamento. O cenário macroeconômico aponta para um crescimento mais tímido em 2027, fator que aumenta a urgência de decisões estruturais.
Especialistas consultados pela mídia revelam que nem Flávio Bolsonaro nem Luiz Inácio Lula da Silva apresentaram planos detalhados para lidar com esses desafios. Economistas como Bruno Imaizumi, da 4intelligence, e Felipe Salto, da Warren Investimentos, pedem prudência e ação imediata, mas apontam que o debate eleitoral deixou lacunas importantes que só serão preenchidas após a eleição.
Cenário fiscal e o peso da dívida pública
A dívida pública alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto, o que representa 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco Central. Esse montante inclui a União, a Previdência, estados e municípios, e cresce quando os gastos superam a arrecadação tributária, gerando um efeito de bola de neve que eleva os juros e encarece investimentos. O elevado nível de endividamento limita a capacidade do Banco Central de baixar a taxa básica de juros, pressionando ainda mais o consumo e os investimentos privados.
Propostas de Flávio Bolsonaro e Lula para o ajuste fiscal
Flávio Bolsonaro sinaliza um “tesouraço” nos gastos, sugerindo cortes entre 1,5% e 2% do PIB nos primeiros 18 meses – equivalentes a R$ 190 bi a R$ 250 bi – focados em redução de ministérios, cargos comissionados e salários elevados do funcionalismo. Ao mesmo tempo, ele promete manter o reajuste real do salário mínimo e não tocar nos pisos de saúde e educação, o que gera dúvidas sobre a sustentabilidade desses cortes. Por outro lado, Lula inclui em seu pacote eleitoral despesas que somam quase R$ 200 bi até 2030, além de propostas como tarifa zero nos transportes aos fins de semana, sem apresentar um corte de gastos explícito.
A economista Rafaela Vitória, do Banco Inter, ressalta que ambos os candidatos ainda não entregaram propostas concretas de ajuste, mas destaca que Flávio pode receber mais confiança do mercado inicialmente, graças à experiência do governo anterior em conter a inflação. Já Lula carrega um histórico de expansão de despesas e promessas que aumentaram a dívida, como o programa Desenrola 3.0 e o perdão de dívidas, o que pode gerar maior ceticismo entre investidores.
Reações do mercado e avaliação de especialistas internacionais
Após o primeiro turno, o mercado reagiu positivamente ao desempenho de Flávio, com o dólar recuando para a faixa de R$ 5 e a Bolsa atingindo recorde histórico. O economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, explica que a expectativa de um ajuste fiscal mais rigoroso tende a baixar a curva de juros, beneficiando títulos prefixados e ações. Contudo, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz alerta que a combinação de cortes de despesas, redução de impostos para os mais ricos e privatizações pode gerar contração da atividade econômica, aumento da desigualdade e maior vulnerabilidade social. Segundo Stiglitz, a promessa de preservar benefícios previdenciários enquanto corta outras áreas essenciais cria um cenário de austeridade que pode reduzir o PIB e aprofundar a pobreza.
Em síntese, independentemente do vencedor, a realidade fiscal exigirá ajustes. Economistas concordam que os cortes apenas em cargos políticos ou venda de ativos não bastarão para transitar de déficit primário a superávit. As decisões sobre gastos obrigatórios, isenções fiscais e investimentos em infraestrutura serão decisivas para garantir que o Brasil esteja em condições de crescer nos anos subsequentes.



