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Greg Abel assume liderança enquanto ações da Berkshire recuam

O tradicional evento anual da Berkshire Hathaway chega com um ar diferente: é a primeira assembleia desde que Warren Buffett deixou a liderança em 2026 e a primeira sob o comando de Greg Abel. O encontro, com o lema “O Legado Continua”, ocorre em meio a preocupações sobre desempenho acionário — as ações Classe B ficaram mais de 37 pontos percentuais atrás do S&P 500 nos últimos doze meses, o pior resultado anual desde 2000, enquanto o valor de mercado recuou cerca de US$ 139 bilhões.

Apesar da trajetória histórica de superação do mercado pelos papéis da empresa, a transição expôs vulnerabilidades que haviam sido toleradas ou atenuadas pela presença de Buffett e seu estilo de gestão. Desde 1997, as ações Classe B registraram, em média, ganho anual de 11%, cerca de um ponto percentual acima do retorno anualizado do S&P 500, mas indicadores como o preço/valor patrimonial mostram retração: de aproximadamente 1,8 antes da assembleia anterior para cerca de 1,4 hoje.

Fatores que explicam a fraqueza das ações

Vários elementos contribuíram para a queda do papel. Perdas contábeis em investimentos importantes reduziram a confiança dos investidores, enquanto resultados operacionais decepcionaram em segmentos-chave. A Berkshire também enfrenta um mercado acionário caro, alimentado por setores em alta — entre eles empresas ligadas à inteligência artificial — que reduziram as oportunidades clássicas de deep value para empregar o caixa de US$ 373 bilhões da holding. Além disso, um desempenho mais fraco nas operações de seguro pressionou margens e lucros consolidados, acentuando a percepção de que a empresa está menos afiada em identificar grandes oportunidades.

Perdas específicas e efeitos contábeis

Investimentos em companhias como Kraft Heinz e Occidental Petroleum resultaram em baixas contábeis combinadas de cerca de US$ 8,3 bilhões, parte do argumento sobre a erosão da reputação de compradora bem-sucedida. Ao mesmo tempo, o resultado de underwriting das operações de seguros caiu abruptamente — mais de 54% em determinado trimestre — enquanto concorrentes apresentavam desempenho superior. Esses números ajudam a explicar por que o mercado se mostra menos indulgente diante de equívocos que antes eram relativizados pela confiança em Buffett.

O desafio da transição e o chamado “prêmio Buffett”

Durante décadas, investidores aceitaram pagar um chamado prêmio Buffett, avaliando as ações da Berkshire acima da média do mercado devido à expectativa de retornos extra. Com a saída de Buffett, essa aura psicológica é menos evidente, e o mercado exige provas de que a máquina de alocação de capital continua a operar com eficácia. Greg Abel prometeu continuidade na abordagem de investimento e gestão de risco, mas enfrenta o desafio adicional de não ter histórico profissional de gestão de recursos, função central na holding. Seu histórico operacional — especialmente na transformação do braço de energia em um motor de lucros — o credencia, mas ainda falta ao novo CEO a validação, aos olhos de muitos investidores, de que conseguirá reproduzir grandes acertos.

Valuation, confiança e comportamento dos investidores

A queda na relação preço/valor patrimonial é sintomática da desconfiança: investidores, diante da mudança de liderança e de avaliações elevadas do mercado como um todo, optaram por reduzir posições. Parte desse movimento foi impulsionada por considerações de valuation e pela percepção de que ativos de qualidade estão mais escassos em um ambiente dominado por setores em alta. Enquanto isso, sinais como a retomada de recompra de ações em março e algumas mudanças na diretoria foram recebidos de forma positiva, mas não bastam para apagar a necessidade de resultados concretos.

O que esperar da assembleia e das próximas decisões

Na assembleia, investidores buscarão clareza sobre como a gestão pretende alocar o grande montante de caixa e que tipos de oportunidades Abel e sua equipe estão dispostos a perseguir. A presença de executivos como Katie Farmer e Adam Johnson deve ajudar a dar visibilidade às operações operacionais, enquanto alterações na governança e comunicações podem sinalizar uma resposta ao pedido de maior transparência. Em curto prazo, o mercado quer ver movimentos que demonstrem habilidade em identificar valor; em horizonte mais longo, a consolidação da confiança dependerá de resultados consistentes.

No fim, o veredito dos acionistas tende a seguir os princípios clássicos do investimento: preços refletem fundamentos ao longo do tempo. A capacidade de Greg Abel de preencher o papel deixado por Warren Buffett será julgada tanto por grandes apostas bem-sucedidas quanto pela manutenção da disciplina de alocação de capital que fez a história da Berkshire.

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