Em meio a discussões sobre o futuro da política econômica brasileira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou que o país precisa de uma economia arrumada para atrair capital externo. Em pronunciamento realizado na primeira reunião do Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), ele afirmou que investidores exigem segurança jurídica e responsabilidade fiscal antes de aplicar recursos.
A proposta de Lula vem acompanhada de um debate interno sobre como fazer o ajuste fiscal sem sacrificar os programas sociais que fortaleceram seu governo. A economista Juliane Furno, doutora em desenvolvimento econômico pela Unicamp, advoga que o ajuste deve recair sobre as receitas, sobretudo por meio da taxação de super-ricos, da ampliação das alíquotas do Imposto de Renda e da revisão de supersalários e emendas parlamentares.
Opções de arrecadação para o ajuste fiscal
Furno destaca que a arrecadação de quem tem maior capacidade contributiva é a alternativa menos política e mais eficaz. Ela sugere criar faixas adicionais no IR, rever a tributação de grandes fortunas e rever benefícios como as aposentadorias militares. “A minha esperança é que esse ajuste fiscal seja sobre as receitas”, disse a economista, alertando que recortes nos gastos sociais poderiam gerar “estelionato eleitoral” e minar a legitimidade do presidente.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, corroborou a necessidade de rever o arcabouço fiscal que fixa limites ao crescimento das despesas obrigatórias. Segundo ele, o atual modelo pode comprimir recursos destinados à infraestrutura e aos serviços públicos, exigindo revisão para garantir investimento público sem gerar desequilíbrio.
Investimento e a necessidade de uma economia estável
Lula explicou que um ambiente econômico previsível e com regras claras é essencial para atrair investimentos estrangeiros e nacionais. Ele enfatizou que “ninguém vai querer investir em uma economia totalmente desordenada” e que a seriedade nas contas públicas será o cartão de visita do Brasil para os investidores. Para o presidente, a estabilidade fiscal deve andar lado a lado com a continuidade de políticas sociais, evitando que o segmento mais vulnerável seja penalizado.
Durante a reunião do CIMCE, foram aprovadas as listas de minerais críticos – como terras raras, grafita, níquel, potássio e nióbio – que podem gerar novos projetos industriais. Lula apontou que a exploração desses recursos depende de um cenário macroeconômico confiável, reforçando a ligação entre política fiscal, investimento em tecnologia e geração de empregos qualificados.
Perspectivas da política monetária e o papel da Selic
Em paralelo ao debate fiscal, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, citando elevações nas expectativas inflacionárias e incertezas econômicas. O Banco Central relacionou a alta dos juros ao risco de que o consumo de serviços pressiona a inflação. Furno, entretanto, critica a lógica que associa o aquecimento do mercado de trabalho e do consumo à pressão inflacionária, defendendo que há espaço para reduzir a Selic.
A economista ainda responsabiliza Lula por ter deixado de manter a campanha pública contra os juros altos após a saída de Roberto Campos Neto do Banco Central, permitindo que a pressão do mercado se consolidasse. Ela alerta ainda para a chamada “porta giratória” entre dirigentes do Banco Central e o setor privado, que pode influenciar decisões monetárias em benefício de interesses particulares.
Em síntese, o governo busca equilibrar três eixos: arrecadar mais dos mais ricos, garantir investimentos por meio de um ambiente econômico estável e, simultaneamente, manter a política monetária sob controle sem onerar ainda mais a população. O caminho escolhido nas próximas semanas moldará tanto a confiança dos investidores quanto a percepção popular sobre a viabilidade do projeto de desenvolvimento social do presidente.



