Na manhã de 26 de outubro, logo após a proclamação da segunda-volta da eleição presidencial, o mercado brasileiro entrou em colapso. O Ibovespa recuou quase 14%, o índice de títulos públicos IMA-B caiu 7% e o dólar avançou 9%, refletindo a frustração dos investidores que tinham apostado em um ajuste fiscal promovido por Flávio Bolsonaro. Esse cenário desencadeou a maior queda diária já observada em mais de 38% dos fundos de investimento analisados.
Impacto imediato nas carteiras
Um levantamento de 17,6 mil fundos com pelo menos dois anos de histórico mostrou que 63% registraram alguma perda no pregão de 26/10, com a mediana de retorno diário em -1%. Entre os fundos mais antigos – aqueles com cotas emitidas antes de 2019 – 27% registraram o pior dia da história, enquanto 31% dos fundos que possuíam mais de 100 cotistas e patrimônio acima de R$ 20 milhões sofreram a maior queda já vista.
Principais categorias e fundos mais afetados
Os fundos de ações foram os mais vulneráveis: 68% deles alcançaram a pior performance diária, com mediana de -15,78%. Os ETFs (41 fundos) apresentaram queda mediana de -2,02% e os multimercados, 34% das unidades, encerraram o dia com retorno mediano de -0,88%. Entre as categorias da Anbima, destaca-se a classe de small caps, que teve 100% de seus fundos registrando a pior queda, seguida pelos fundos de previdência focados em ações (92,6%).
Exemplos de perdas severas
Os nomes que lideraram a lista de perdas incluem Alaska Black II (FIC FIA Ações –44,62% no dia), Alaska Black (FIC FIA Ações Livre –44,48%), Stoxos (FIF Ações –42,89%) e Moat Capital, que teve quatro fundos abaixo de -42%. Esses fundos, antes de 2026, já exibiam alta volatilidade, mas o movimento de 26/10 ultrapassou qualquer histórico anterior, inclusive o da crise da Covid-19.
Motivos da reversão e panorama da indústria
Antes da segunda-volta, grande parte das gestoras havia alinhado suas posições a uma expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro, antecipando um hedge de política fiscal mais austera, queda de juros e redução da inflação. Quando Lula foi reeleito, o cenário mudou abruptamente: o risco fiscal permaneceu alto e o Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano. Essa mudança inesperada fez com que os investimentos em ações, juros e moedas, ainda que bem dimensionados, se tornassem desfavoráveis.
O custo total das perdas chegou a R$ 157,5 bilhões, representando 1,44% da soma dos patrimônios dos fundos, segundo dados da Economática. Setores como ações e multimercados foram os mais atingidos, com sete fundos apresentando desvalorizações superiores a 40% em apenas um dia. A média de queda entre os 682 fundos analisados foi de 6,90%, enquanto 202 fundos registraram ganhos ou estabilidade.
Gestores de destaque relataram o impacto. A Mantaro, com patrimônio de R$ 373,2 milhões, viu seu fundo de ações despencar 32,24% no dia, após ter subido 17,93% no pregão seguinte ao primeiro turno. A Mar Capital anunciou ajustes de custos e reestruturação de equipe, enquanto a Verde Asset Management perdeu cerca de R$ 2,6 bilhões em outubro. Por outro lado, um fundo de tecnologia dos Estados Unidos, administrado pelo Itaú, ganhou 10,70% graças à alta do dólar.
Especialistas apontam que a recuperação dependerá da trajetória dos juros de longo prazo e da clareza fiscal do novo mandato. Myrian Lund, professora da FGV, destaca que os multimercados operam de forma mais eficiente quando a taxa de juros real se mantém entre 2% e 3%; acima de 5% a tarefa de superar produtos de renda fixa se torna significativamente mais difícil. Enquanto o governo Lula ainda define suas metas fiscais, o avesso ao risco permanece elevado, beneficiando ativos de renda fixa e desencorajando novas apostas agressivas em small caps brasileiras.



