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21 maio 2026

Pressão na Câmara para suspender emenda que prevê dez anos de transição na proposta do fim da escala 6×1

Sete líderes da Câmara assinaram nota pedindo que o presidente Hugo Motta suspenda a tramitação de uma emenda que institui um regime de transição de 10 anos para a mudança da jornada de trabalho

Pressão na Câmara para suspender emenda que prevê dez anos de transição na proposta do fim da escala 6x1

Um grupo de parlamentares da Câmara dos Deputados formalizou uma solicitação para interromper a análise de uma emenda que altera o calendário de implementação da proposta que acaba com a escala 6×1. A medida, assinada por sete líderes partidários, questiona principalmente a inclusão de um prazo de transição de 10 anos no texto que trata da redução da jornada de trabalho, atualmente em exame na comissão especial.

O documento foi dirigido ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e assinado por Adolfo Viana (PSDB-Cidadania), Antonio Brito (PSD-BA), Augusto Coutinho (Republicanos-PE), Dr. Luizinho (PP-RJ), Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL), Pedro Lucas Fernandes (União Brasil-MA) e Rodrigo Gambale (Podemos-SP). A iniciativa ocorre enquanto o relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), afina o seu parecer sobre a PEC 221/19, que trata da redução de jornada.

Motivações e pontos de atrito

Os signatários alegam que a emenda nº 1, de autoria do deputado Sérgio Turra (PP-RS), cria incertezas quanto aos efeitos práticos da proposta e pode gerar distorções no debate público. Entre as preocupações está a proposta de excluir categorias consideradas essenciais da redução da jornada — definição que, segundo a emenda, incluiria atividades cuja interrupção comprometa a preservação da vida, da saúde, da segurança, da mobilidade, do abastecimento, da ordem pública ou da continuidade de infraestruturas críticas. Para os líderes, a ausência de clareza sobre esses conceitos compromete a compreensão da alteração constitucional.

Aspectos econômicos e compensações

Além da questão do prazo, a emenda apresentada por Sérgio Turra propõe mudanças nas contribuições patronais para compensar os custos da redução de jornada: reduzir de 8% para 4% a contribuição ao FGTS e, temporariamente, isentar a contribuição das empresas à Previdência Social, atualmente fixada em 20% sobre a folha. Essas medidas foram citadas por setores empresariais como fundamentais para viabilizar a transição, mas geraram reação entre parlamentares que defendem uma implementação mais célere e sem perda de direitos.

Prazos, calendário e adiamento do parecer

A leitura do parecer do relator, que estava prevista inicialmente para quarta-feira, 20, foi adiada para a próxima segunda-feira, 25, por falta de consenso entre os membros da comissão e interlocução com a Presidência da Casa. O presidente da comissão, deputado Alencar Santana (PT-SP), afirmou que ainda são necessárias negociações sobre o regime de transição; mesmo assim, manteve a data prevista para votação do texto na comissão. Em paralelo, há divergências entre o governo, que defende ausência de transição e manutenção de salários, e segmentos do Congresso que pleiteiam prazos mais longos.

Debates públicos e reações setoriais

Durante audiências realizadas no programa Câmara pelo Brasil em Porto Alegre, representantes do setor de bares e restaurantes divulgaram estimativas de aumento nos preços, vinculadas ao custo de garantir dois dias de folga semanal. Esses empresários reivindicam estudos que dimensionem os impactos e pedem transição mais dilatada — argumento que reforça a pressão por um prazo de 10 anos defendido por algumas emendas. Por outro lado, defensores da redução da jornada sustentam que a medida é uma melhora na qualidade de vida e pode, a médio prazo, elevar a produtividade.

Caminho à frente e o que está em jogo

Com a tramitação ainda em aberto, o relator Leo Prates avalia alternativas que variam entre a ausência de período de transição e um intervalo intermediário de dois a cinco anos, segundo interlocuções no Congresso. Duas emendas substantivas, uma de Sérgio Turra e outra de Tião Medeiros (PP-PR), reúnem o apoio de centenas de deputados e propõem regimes de dez anos, além da exclusão de atividades essenciais. O desfecho no plenário dependerá do acordo entre líderes, do posicionamento do governo e das negociações sobre compensações financeiras.

Enquanto as articulações prosseguem, a nota conjunta dos líderes pretende impedir que uma mudança de contorno técnico — a inclusão do prazo de 10 anos — seja aprovada sem debate público adequado. A decisão sobre o relatório e as propostas poderá influenciar não apenas a rotina de milhões de trabalhadores, mas também a estrutura de custos das empresas e a forma como serão definidas, por lei complementar, as exceções por setor.

Autor

Andrea Innocenti

Andrea Innocenti coordenou desde o estrangeiro o regresso de uma cronista napolitana durante uma crise diplomática, gerindo contactos com consulados; é correspondente no exterior que define linhas editoriais sobre geopolítica. Nascido em Napoli, fala o dialeto local e mantém relações com ONGs napolitanas.