Os fundos multimercados brasileiros têm enfrentado um cenário desafiador nos últimos meses. A eclosão da guerra do Irã Esse episódio levantou questões sobre a real capacidade desses fundos de oferecer diversificação e proteção contra riscos.
André Leite, CIO da TAG investimentos, analisou o desempenho desses fundos e descobriu que a maioria estava altamente alavancada em DI, uma estratégia que se mostrou arriscada diante da volatilidade recente. “As quedas chamaram a atenção, não houve nada parecido lá fora nessa mesma proporção”, afirmou Leite. “Vimos que havia fundos muito alavancados em DI, possivelmente em uma tentativa um pouco desesperada de reverter os maus resultados dos últimos anos.”
O problema da sincronia nas estratégias
Uma das principais preocupações levantadas por Leite é a falta de diversificação real entre os fundos multimercados. Mais de 70% desses fundos registraram perdas no mesmo período, indicando que a diversificação prometida muitas vezes se resume a uma diversificação de nome não de fator. “Quando você abre o capô, vê a mesma engenharia”, destacou Leite.
Esse fenômeno, conhecido como crowded trade significa que os investidores estão pagando por uma estratégia que pode ser facilmente replicada usando fundos passivos. A análise de Leite mostra que uma carteira de kit Brasil com ETFs pode entregar retornos superiores aos do Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA) em muitos casos.
Comparando retornos: multimercados vs. ETFs
Nos últimos 48 meses, por exemplo, o kit Brasil com ETFs obteve um ganho acumulado de 47%, enquanto o IHFA registrou 43%. O CDI, por sua vez, teve um desempenho ainda mais impressionante, com uma valorização de 63%. “A indústria brasileira de multimercados vende descorrelação e entrega beta. Vende alfa e entrega carrego”, criticou Leite.
Leite também ressaltou que os custos associados aos fundos multimercados são significativamente mais altos do que os dos ETFs. Enquanto os multimercados cobram tipicamente 2% de administração e 20% do ganho acima do CDI, os ETFs têm custos entre 0,2% e 0,35% ao ano. “A maioria dos fundos multimercados entrega apenas beta”, afirmou Leite.
O futuro dos multimercados no Brasil
Para Leite, a indústria de multimercados no Brasil precisa se adaptar às mudanças estruturais do mercado, como o avanço dos ETFs e das gestoras quantitativas. “O gestor de um multimercado tem que criar valor em coisas diferentes, que você, como investidor pessoa física, não consegue fazer com o ETF”, afirmou.
Ele também sugeriu que o futuro dos gestores de multimercados brasileiros pode estar em se juntar a hedge funds globais, como Citadel, Millennium e Point72, no modelo de pod shop. “A indústria não só não tem conseguido fazer isso como ela foi piorando ao longo do tempo”, concluiu Leite.
Enquanto isso, os investidores brasileiros precisam estar cientes das limitações dos fundos multimercados e considerar alternativas que possam oferecer uma verdadeira diversificação e proteção contra riscos.



