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11 junho 2026

Análise revela falhas nos fundos multimercados do Brasil

Os fundos multimercados brasileiros enfrentam críticas por suas estratégias idênticas e resultados questionáveis. Descubra como eles estão perdendo terreno para estratégias passivas.

Análise revela falhas nos fundos multimercados do Brasil

Os fundos multimercados brasileiros enfrentaram um período turbulento no início de 2026, com a eclosão da guerra do Irã em fevereiro pegando a maioria deles no contrapé. A sincronia nas estratégias adotadas revelou uma vulnerabilidade significativa, com quase todos os fundos mergulhando de forma simultânea.

O cenário típico era de apostas na queda da Selicvalorização da Bolsa e do real – o chamado kit Brasil. No entanto, quando o preço do petróleo disparou, os efeitos inflacionários fizeram os juros futuros subirem rapidamente, e a Bolsa devolveu os ganhos do início do ano.

O fenômeno do crowded trade e a falta de diversificação

André Leite, CIO da TAG Investimentosrealizou um estudo que revelou como os fundos de multimercado seguem estratégias muito parecidas, não oferecendo um verdadeiro hedge contra o risco Brasil. “As quedas chamaram a atenção, não houve nada parecido lá fora nessa mesma proporção”, afirmou Leite.

O dado mais revelador da recente queda não foi o tamanho da desvalorização, mas sim a baixa dispersão entre os fundos: mais de 70% deles ficaram no vermelho. “Quando todos os fundos perdem juntos no mesmo evento, a tese de diversificação por gestor cai”, resumiu Leite. “O que existia era diversificação de nome, não de fator. Quando você abre o capô, vê a mesma engenharia.”

Crowded trade e a falta de descorrelação

O fenômeno conhecido como crowded trade é particularmente preocupante no contexto brasileiro. Para Leite, isso significa que o cotista do fundo está pagando caro por uma estratégia que pode ser facilmente replicada usando fundos passivos. A análise mostra que fazer uma carteira de kit Brasil com ETFs entrega quase sempre um retorno superior ao Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA).

Nos últimos 48 meses, por exemplo, o kit Brasil com ETFs entregou um ganho acumulado de 47%, contra 43% do IHFA. A triste realidade é que, nessa janela, quem liderou mesmo foi o CDIcom valorização de 63%. Em sua simulação, Leite montou a carteira de KIT Brasil da seguinte maneira: 20% em IMA-B e 20% em IRF-M para renda fixa pré; 20% em CDI para renda fixa pós; 20% em dólar para câmbio; 10% em Ibovespa para renda variável Brasil; e 10% em S&P 500 em real para renda variável global.

Custos e a atratividade dos multimercados

Os multimercados cobram, tipicamente, 2% de administração e 20% do ganho acima do CDI – a fórmula 2/20. O custo efetivo para os investidores fica entre 2,5% e 4% ao ano. Com os ETFs, o custo é um décimo disso: fica entre 0,2% e 0,35% ao ano. “A indústria brasileira de multimercados vende descorrelação e entrega beta. Vende alfa e entrega carrego. Vende sofisticação e entrega 2/20 sobre um kit Brasil ligeiramente mais arriscado”, disse Leite.

Segundo ele, nos fundos macro com book genuinamente neutralizado em relação ao risco Brasil, o cliente recebe uma convexidade que o ETF não replica. “O problema é que esses fundos são minoria dentro do universo do IHFA. A maioria entrega apenas beta.” A movimentação diária do índice dos multimercados é dominada pela oscilação da Bolsa brasileira, dólar e juros.

O futuro dos multimercados brasileiros

Há quatro anos os multimercados apresentam retornos ruins e enfrentam saques. Parte da dificuldade se deve à elevada taxa de juros no País – e como o benchmark é o CDI, a barra fica muito elevada. Para Leite, entretanto, esta é apenas uma parte da história. “É uma indústria que já vinha penando mesmo quando os juros eram mais baixos.”

Em sua avaliação, a indústria de multimercados é uma classe de investimento que continuará perdendo relevância se as gestoras não se adaptarem às mudanças estruturais ocorridas no mercado mundial, como o avanço dos ETFs e das gestoras quantitativas, com os fluxos sendo movimentados por algoritmos. O gestor de um multimercado “tem que criar valor em coisas diferentes, que você, como investidor pessoa física, não consegue fazer com o ETF”, disse Leite. “A indústria não só não tem conseguido fazer isso como ela foi piorando ao longo do tempo.”

Para Leite, o futuro do gestor de multimercados brasileiros poderá ser renunciar à independência de ser dono de um fundo no Brasil para se juntar a hedge funds globais como mais um pod shop, no modelo adotado por casas como Citadel, Millennium e Point72.