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22 maio 2026

Estudo empírico liga expansão monetária ao atraso do índice de preços e reforça argumentos pró-Bitcoin

Um novo trabalho acadêmico usa séries longas dos Estados Unidos e do Brasil para mostrar que o CPI e o IPCA reagiriam tardiamente a choques na oferta monetária, confirmação empírica de ideias da Escola Austríaca

Estudo empírico liga expansão monetária ao atraso do índice de preços e reforça argumentos pró-Bitcoin

O artigo An Asymmetric Weighted Moving Average for Monetary Aggregates: Evidence from the United States and Brazil, assinado por João Paulo Mayall e Gerson de Souza Júnior (PhD, portfolio manager na Hashdex), propõe uma forma alternativa de medir liquidez e aplica essa metodologia a três conjuntos de dados: M2, True Money Supply (TMS-2) e Divisia M4. A amostra abrange os Estados Unidos (1959–2026) e o Brasil (2002–2026), e o resultado central sugere que os índices de preços ao consumidor são apenas o eco tardio de choques monetários.

Na linguagem do estudo, ao construir médias móveis assimétricas para os agregados monetários, os autores capturam uma defasagem de transmissão que transforma correlações aparentemente fracas em sinais robustos. Em termos práticos, isso implica que decisões baseadas no CPI ou no IPCA podem estar reagindo a eventos monetários ocorridos muitos meses antes.

Metodologia e principais resultados

Os autores formalizam uma técnica de média móvel ponderada assimétrica para medir a liquidez efetiva dos agregados. Ao aplicar esse filtro, comparamos três definições de dinheiro: o M2 do Federal Reserve, o TMS-2 ligado à tradição austríaca e o Divisia M4 do Center for Financial Stability. Os testes estatísticos incluem análise de correlação com lags e identificação de quebras estruturais via programação dinâmica.

Correlação e defasagem nos Estados Unidos

No caso americano, a correlação contemporânea entre crescimento do M2 e o CPI aparece praticamente nula (ρ = 0,07). Porém, quando a série considera uma defasagem de 25 meses, a correlação salta para 0,43. Os autores estimam que a defasagem efetiva para agregados ortodoxos nos EUA varia entre 21 e 26 meses, intervalo mais longo do que o comumente citado pela literatura tradicional.

Resultados para o Brasil

No Brasil a leitura é igualmente reveladora: a correlação contemporânea entre o agregado monetário e o IPCA é negativa (–0,22) e torna-se positiva (+0,44) com um lag de 15 meses. Essa diferença de prazo entre os dois países sugere regimes de transmissão monetária distintos, provavelmente ligados a estruturas financeiras e ciclos econômicos locais.

Implicações, contexto e reações

Uma consequência imediata é que gestores e investidores que usam o CPI como sinal principal podem estar atrasados em suas decisões — reagindo a uma onda monetária que já passou pela fase estrutural do sistema. O estudo também mostra que a escolha do agregado é uma opção teórica: trocar M2 por TMS-2 altera a narrativa histórica da inflação americana. Além disso, a análise detecta eventos macro importantes: o TMS-2 identifica mudanças regulatórias nos anos 1980, o Divisia M4 destaca a crise de 2009 e o M2 reflete choques da pandemia em 2026.

O trabalho integra um programa de pesquisa mais amplo de Mayall, que após saídas empresariais dedicou-se à produção acadêmica. Entre os papers anteriores estão estudos sobre a relação entre expansão monetária e juros, a validação do teorema da regressão para o Bitcoin e a análise sobre como reservas de ouro criam exposição indireta a títulos americanos. Os quatro papers estão disponíveis na SSRN: An Asymmetric Weighted Moving Average, The Paradox of Gold Reserves, Bitcoin as Validation of the Regression Theorem e Inflation: Unraveling the Impact of Monetary Expansion.

Repercussão e próximos passos

O impacto do conjunto de trabalhos extrapola a academia: o artigo sobre ouro foi citado por atores públicos e privados nos Estados Unidos e ganhou ecos na comunidade macro. Internamente, a trajetória de João Paulo Mayall — fundador do primeiro ETF de Bitcoin da América Latina (B3: QBTC11) e de outros ETFs pioneiros — confere à pesquisa um diálogo direto entre mercado e teoria. Para o futuro, Mayall afirmou avaliar projetos de longo prazo com participação acionária ou contratos de vesting, ao mesmo tempo em que mantém atividade acadêmica intensa.

Em síntese, o estudo oferece evidência empírica de que a inflação tende a seguir a expansão monetária com atraso significativo, reforçando argumentos da Escola Austríaca e levantando implicações práticas para política monetária, alocação de ativos e a narrativa sobre ativos de reserva como o Bitcoin e o ouro.

Autor

Emanuele Galli

Emanuele Galli, napolitano, recorda um encontro em Capodichino com voluntários de saúde que o levou a explicar procedimentos complexos de forma simples. Na redação adopta um tom criativo e direto, traz reportagens clínicas e um caderno com desenhos explicativos para pacientes.