A Berkshire Hathaway anunciou ontem a compra de mais aproximadamente 924 mil ações da SiriusXM, elevando sua participação total para 125,7 milhões de cotas, o equivalente a 37 % da empresa de rádio por satélite.
O investimento, realizado entre 30 de outubro e 3 de novembro, custou cerca de US$ 27 milhões, com preço médio entre US$ 29 e US$ 30 por ação – valor superior ao pago em compras anteriores, registradas em meados de 2025.
Detalhes da compra e estrutura acionária
Conforme a última declaração regulatória, a maior parte das novas cotas foi adquirida por meio da seguradora GEICO, braço de seguros da Berkshire, enquanto o restante ficou sob planos de pensão controlados pela holding.
Ao somar as aquisições recentes às compras já anunciadas em 2017, a participação da conglomerada de Omaha ultrapassa 1 % do seu portfólio total, com avaliação de mercado da SiriusXM em torno de US$ 11,2 bilhões, o que coloca o valor da posição da Berkshire em aproximadamente US$ 4 bilhões.
SiriusXM: da fusão ao turnaround
A emissora nasceu em 2008 da união das satélites Sirius e XM, que na época controlavam quase todo o mercado nacional de rádio via satélite, atendendo mais de 5 milhões de assinantes.
O processo de fusão foi custoso e demorou mais de um ano para receber aprovação regulatória, coincidindo com a crise do subprime que restringiu o acesso a crédito e quase levou a empresa à recuperação judicial. Foi então que a Liberty, conglomerado de mídia de John Malone, concedeu um empréstimo que salvou a operação, tornando-se acionista majoritária – chegou a deter até 83 % do capital.
Em 2017, a Liberty criou a tracking stock Liberty Sirius, permitindo que a Berkshire investisse indiretamente. Quando, em 2024, as duas entidades se separaram, a Berkshire passou a deter suas cotas de forma direta, coincidindo com o início de um turnaround operacional da SiriusXM.
Desde então, a empresa tem reduzido custos, revisto a política de preços e investido pesado em tecnologia, podcasts e apps, o que já gerou crescimento da base de assinantes nos últimos meses, apesar de o público-alvo ainda ser predominantemente automobilístico e envelhecido.
Estratégias de crescimento e novas parcerias
Um dos pilares da nova estratégia são os acordos publicitários com gigantes digitais. Em abril, a SiriusXM passou a vender, em exclusividade nos Estados Unidos, anúncios em áudio no YouTube. O analista Bryan Kraft estima que essa parceria poderá gerar até US$ 2 bilhões de receita até 2029.
Além disso, a empresa firmou contratos de publicidade com a Amazon, ampliando a monetização de suas transmissões. Mantém ainda licenças para canais temáticos da CNN e da NBA, e programas exclusivos de personalidades como Howard Stern e Conan O’Brien. Em 2019, adquiriu a plataforma Pandora por US$ 3,5 bilhões, incorporando seus 6 milhões de assinantes pagos e mais de 33 milhões de usuários gratuitos que geram receita publicitária.
Desempenho recente da ação
Após o anúncio da Berkshire, a cotação da SiriusXM subiu 8 % no pregão, acumulando alta de 53 % nos últimos 12 meses, embora ainda registre queda de 47 % ao longo dos últimos cinco anos. O movimento de compra ocorreu pouco antes de uma rotação geral dos investidores, que deixaram de lado ações de infraestrutura de IA em busca de empresas com forte geração de fluxo de caixa livre e políticas agressivas de recompra de ações.
Implicações para o mercado
O sinal de confiança da Berkshire pode reforçar a tendência de investidores valorizarem negócios maduros e rentáveis, especialmente em um ambiente onde o entusiasmo em torno da inteligência artificial parece estar atingindo seu pico. Caso a rotação continue, mais companhias de mídia e consumo com fluxo de caixa sólido poderão atrair olhares semelhantes.
Enquanto isso, o conselho da SiriusXM reafirmou seu plano de intensificar os programas de recompra a partir de, sustentado por um aumento de 14 % no fluxo de caixa livre reportado no terceiro trimestre de 2024. Se a empresa conseguir manter a expansão da base de assinantes e converter as parcerias digitais em receita consistente, a participação da Berkshire de US$ 4 bilhões pode render retornos ainda mais atrativos.



