A cúpula do grupo BRICS em Nova Délhi está colocando em evidência um novo modelo de liderança global, onde o Ocidente não é o protagonista. Com os conflitos no Oriente Médio se intensificando e os preços da energia subindo, os líderes da China, Índia e Rússia têm uma vantagem que os Estados Unidos não possuem: um assento à mesa com o Irã.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi está liderando o encontro do clube BRICS formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e que agora inclui países como Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. O grupo busca projetar solidariedade entre seus membros, mas as expectativas são baixas quanto à sua capacidade de preencher a lacuna de liderança global ou mediar a crise no Oriente Médio.
Tensões internas e desafios diplomáticos
O grupo está dividido por tensões entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, um parceiro de segurança dos EUA que tem sido alvo de milhares de mísseis iranianos desde o início da guerra em fevereiro. Essas divergências impediram o grupo de produzir uma declaração conjunta em maio, após uma reunião dos ministros das Relações Exteriores do BRICS.
Alexander Gabuev diretor do Centro Carnegie Rússia-Eurásia em Berlim, afirma que o mundo está se fragmentando rapidamente, mas o desempenho do BRICS está aquém do esperado. Ele destaca a dificuldade de manter um grupo tão grande e diverso unido pela animosidade à hegemonia ocidental, mas com interesses muitas vezes opostos.
O Irã no centro das atenções
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian criticou o poder dos EUA e instou os demais membros a desenvolverem ferramentas financeiras alternativas para se protegerem da pressão ocidental. Ele questionou a hegemonia dos EUA, afirmando que outros países também têm direitos e não devem ser obrigados a obedecer a tudo o que os EUA querem.
Modi, por sua vez, aproveitou uma reunião com Pezeshkian para transmitir uma mensagem incisiva sobre a importância da liberdade de navegação e comércio, uma referência aos bloqueios no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho que ameaçam as importações de combustível da Índia. Essa mensagem reflete o tipo de liderança global que Modi deseja demonstrar, equilibrando interesses diversos e mantendo a Índia como um ator estratégico.
China e Índia: um encontro crucial
A visita do líder chinês, Xi Jinping à Índia é a primeira em sete anos e sinaliza uma estabilização das relações entre os dois países. Os laços atingiram um ponto baixo em 2020, após um confronto entre forças indianas e chinesas em uma região fronteiriça disputada. O encontro entre Xi e Modi é crucial para a China, que busca usar o BRICS para suplantar o poder dos EUA.
Além disso, a África do Sul, outro membro do BRICS, enfrenta seus próprios desafios diplomáticos. O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa compartilha da preferência de Modi por usar o BRICS para construir relações em todo o mundo, mas a coalizão também criou dores de cabeça diplomáticas para Pretória, especialmente em relação ao Irã.
Os líderes do grupo estão navegando em águas turbulentas, buscando equilibrar interesses diversos e projetar uma imagem de unidade em meio a tensões crescentes.



