Nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, o segmento de criptomoedas apostou pesado na corrida política, desembolsando mais de US$ 170 mi. O objetivo era garantir apoio legislativo para um marco regulatório mais amigável ao setor de ativos digitais, mas o resultado eleitoral mostrou que dinheiro não garante vitória.
Um monitoramento independente, o Tech Influence Watch, compilou os gastos de grupos como Fairshake, Defend American Jobs e Protect Progress. Juntos, esses comitês de ação política (PACs) reuniram cerca de US$ 260 mi para influenciar candidatos em todo o país, concentrando recursos em disputas competitivas onde a balança política era estreita.
Distribuição de recursos pelos Crypto PACs
A estrutura liderada pela Fairshake e suas duas afiliadas destinou aproximadamente US$ 75 mi ao apoio de candidatos Republicanos, enquanto os Democratas receberam pouco mais de US$ 30 mi. Além desse apoio direto, foram alocados cerca de US$ 36 mi para campanhas que buscavam impedir a eleição de democratas, inclusive nas primárias do partido. Essa estratégia buscava ampliar a presença de parlamentares favoráveis à visão de regulação defendida pela indústria cripto.
O foco principal recaiu sobre corridas consideradas decisivas. Em estados onde o vencedor poderia mudar o controle das comissões de finanças, os grupos intensificaram a presença de anúncios, comícios e financiamento de comitês de apoio. Apesar do volume de investimento, muitos dos candidatos favoritos do setor foram derrotados, indicando que o eleitorado ainda priorizou outras questões sobre o interesse da criptoindústria.
Derrotas inesperadas em estados decisivos
Um dos cenários mais emblemáticos ocorreu em Ohio. Os Crypto PACs despenderam mais de US$ 40 mi para impulsionar o senador republicano Jon Husted, ao mesmo tempo em que investiram cerca de US$ 24 mi para combater o democrata Sherrod Brown, crítico de longa data das criptomoedas. Brown saiu vitorioso, revertendo a derrota sofrida em 2024 quando a mesma rede financiou a campanha que retirou o senador da disputa. Em Wisconsin, quase US$ 2 mi foram usados para reforçar o republicano Bryan Steil e atacar o democrata Mitchell Berman, mas Berman acabou vencendo.
No Texas, a quantia de US$ 1,4 mi foi direcionada ao senador republicano Ken Paxton contra o democrata James Talarico, que triunfou. Em Michigan, o republicano Mike Rogers recebeu cerca de US$ 810 mil de apoio, porém foi derrotado por Abdul El-Sayed. Outras derrotas incluíram a candidatura de Ashley Hinson em Iowa, derrotada por Josh Turek apesar de US$ 700 mil do Digital Freedom Fund, e a vitória da democrata Juliana Stratton em Illinois, que superou um investimento de quase US$ 10 mi de esforços anti-Stratton nas primárias.
Consequências políticas e regulatórias
O revés nas urnas ocorre em um momento em que o Senado Federal bloqueou o Clarity Act, a proposta que visava estabelecer um marco regulatório para ativos digitais. Com o Partido Democrata assumindo o controle da Câmara e do Senado, a probabilidade de avançar leis que favoreçam a indústria cripto diminui, deixando a iniciativa nas mãos de agências reguladoras como a SEC e a CFTC. Essa conjuntura evidencia que o aporte financeiro não foi suficiente para contornar a insatisfação dos eleitores com temas como custo de vida e políticas econômicas.
Apesar das perdas, alguns aliados permaneceram no Congresso. Em Nebraska, a Fairshake investiu mais de US$ 13 mi contra o independente Dan Osborn, ajudando o republicano Pete Ricketts a garantir a vaga e manter seu posto no Comitê Bancário do Senado. No Kentucky, quase US$ 8 mi foram empregados para apoiar Andy Barr nas primárias, culminando na conquista da cadeira deixada por Mitch McConnell. Esses triunfos mantêm canais de influência da criptoindústria, mas o futuro regulatório parece agora mais incerto.



