Em 2026 o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) vive uma transformação sem precedentes. A parceria entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central resultou na redução temporária do compulsório de 20% para 15%, liberando uma parcela de 5% que pode ser redirecionada para estímulos ao crédito habitacional da classe média. Essa medida veio acompanhada de ajustes que permitem que recursos captados por meio de Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) sejam utilizados de forma mais flexível dentro do Sistema Financeiro da Habitação (SFH).
Mudança no SBPE e primeiros resultados
Com a flexibilização, a Caixa Econômica Federal conseguiu autorizar até R$ 20 bilhões em novos financiamentos, mantendo o teto de juros do SFH em 12% ao ano mais a Taxa Referencial (TR). Imóveis com valor entre R$ 1,5 e 2,5 milhões passaram a ter suas taxas reduzidas de até 19% ao ano para o limite regulado, ampliando a acessibilidade para famílias que antes encontravam dificuldades em arcar com prestações elevadas. Os indicadores da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (ABECIP) demonstraram que, em agosto de 2026, os recursos do SBPE totalizaram R$ 16,97 bilhões, representando o terceiro melhor resultado dos últimos 25 anos.
Performance acumulada e desafios persistentes
No acumulado de janeiro a agosto, o volume financiado pela poupança chegou a R$ 132,5 bilhões, um salto de 37,5% frente ao mesmo período de 2025. O número de unidades habitacionais atendidas alcançou 384,6 mil, 35,9% acima do ano anterior. Apesar desses números animadores, representantes do setor, como o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Eduardo Aroeira, alertam que a alta da taxa Selic ainda representa um obstáculo significativo para a classe média, que responde por 61% da demanda final por moradia.
Novas exigências da CBIC ao governo
A CBIC submeteu ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central um novo pacote de sugestões: aumentar a margem de recursos destinados ao financiamento residencial de 80% para 90%, o que, segundo cálculos da entidade, poderia injetar R$ 75 bilhões adicionais no mercado de imóveis até R$ 2,25 milhões; garantir indefinidamente o teto de juros de 12% ao ano para o SFH; e prorrogar a fase de testes do novo modelo até o final de 2027, adiando a implementação definitiva prevista para janeiro de 2027. Além disso, a indústria pede maior transparência nas métricas do SBPE, para que a sociedade acompanhe a evolução dos indicadores voltados à classe média.
Propostas habitacionais dos candidatos à presidência
Em paralelo, as plataformas eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam linhas de ação distintas para o setor. Lula propõe a continuidade e ampliação do Minha Casa, Minha Vida abrangendo todas as faixas de renda e incluindo instrumentos como a Compra Assistida para famílias desalojadas por desastres. O plano também prevê a utilização de terrenos urbanos da União, a regularização de imóveis por meio do Fundo Imobiliário da União e a expansão do programa Reforma Casa Brasil da Caixa.
Já o programa de Flávio Bolsonaro sugere o retorno do Casa Verde e Amarela com meta de 2,5 milhões de residências e redução de juros, além de ações de urbanização em áreas de risco de deslizamento. O candidato destaca a parceria público-privada como mecanismo-chave e inclui o Marco Legal do Saneamento para universalizar água e esgoto até 2033. No campo de crédito, a proposta cria a “Banco da Prosperidade”, centralizando serviços digitais e IA para facilitar a concessão de financiamentos.
Ambas as propostas carecem de cronogramas detalhados e de estimativas orçamentárias claras, mas deixam evidente que a questão habitacional será um ponto central na disputa presidencial. Enquanto o governo federal avança com a reestruturação do SBPE para preservar o acesso ao crédito, a pressão da indústria da construção e as promessas eleitorais apontam para um cenário de debates intensos sobre como equilibrar a disponibilidade de recursos com a contenção da inflação e a sustentabilidade fiscal.



