O mercado de debêntures de infraestrutura atravessa um ano de forte oscilação. A mediana dos prêmios sobre as NTN-B com prazo equivalente alcançou 0,4 ponto percentual, enquanto os papéis mais líquidos exibem um spread de 0,74 ponto – acima da média histórica de 0,57 ponto apontada pelo IDEX-Infra. Esses números representam o nível mais alto observado desde 2024 e indicam que o custo de financiamento para os projetos de infraestrutura está, atualmente, em patamares pouco confortáveis.
Evolução dos spreads ao longo de 2024
Até o final de março, os spreads eram negativos, sinalizando que os investidores exigiam menos retorno que os títulos públicos. A partir da marcação a mercado, porém, o cenário se reverteu drasticamente. Em setembro, os fundos que mantêm posições em debêntures de infraestrutura deverão registrar perdas consideráveis, o que pode
ampliar ainda mais a aversão ao risco neste segmento. O movimento reflete não só a volatilidade dos preços, mas também os
impactos de eventos de crédito, como os *defaults* recentes de empresas como Raízen e GPA.
Fatores que impulsionam a alta dos spreads
Do ponto de vista do mercado, três variáveis principais explicam o aumento dos prêmios. Primeiro, a volatilidade inesperada dos preços coloca pressão sobre os fundos, elevando o custo de capital. Segundo, a ocorrência de defaults de emissores tradicionais enfraquece a confiança dos investidores e gera um efeito cascata nas avaliações de risco. Por fim, a expansão do modelo fee-based de assessoria financeira reduziu a recomendação de debêntures de infraestrutura, já que esses papéis costumam remunerar consultores com comissões mais altas, afastando parte dos investidores pessoa física.
Consequências para as emissões e perspectiva de retomada
Com a demanda reduzida e o custo de crédito para as empresas em patamares elevados, as emissões de projetos de infraestrutura caíram ao menor nível desde janeiro de 2019. Em agosto, o volume total foi de apenas R$ 170 milhões – queda de 97,5% em relação a julho e de 98% frente a agosto de 2025, segundo dados da Anbima. Embora setembro tenha registrado algum repique, ainda está muito aquém dos volumes observados no ano anterior. Analistas apontam que a retomada consistente depende da trajetória futura dos juros, já que a perspectiva de redução de juros pode estimular novas captações de recursos.
Oportunidades para investidores dispostos a assumir risco
Apesar do cenário adverso, alguns gestores enxergam possibilidades estratégicas. Rafael Fritsch, CIO da Root Capital destaca que o momento de pressão nos preços cria condições favoráveis para capturar prêmios no mercado secundário. A Leto Capital também reforça a tese de que as debêntures de infraestrutura apresentam a melhor relação risco-retorno entre as subclasses de crédito privado, o que justifica um aumento gradual de sua exposição. Assim, investidores com perfil de maior tolerância ao risco podem encontrar oportunidades atrativas, desde que considerem a volatilidade e o risco de crédito.
Em síntese, os spreads das debêntures de infraestrutura atingiram seu ponto mais alto desde 2024, refletindo um conjunto complexo de fatores que inclui volatilidade de mercado, eventos de default e mudanças no modelo de assessoria financeira. Enquanto a emissão de novos títulos permanece retraída, gestores experientes apontam para uma possível janela de oportunidade no mercado secundário, especialmente para aqueles que aceitarem o risco implícito nesses papéis.



