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23 setembro 2026

ETF no Brasil: oportunidades perdidas pelos investidores de alta renda

Investidores ultrarricos ainda evitam ETFs, mas a tendência global aponta para uma reviravolta no mercado brasileiro

ETF no Brasil: oportunidades perdidas pelos investidores de alta renda

Nos últimos meses, os fundos de índice (ETFs) registraram expansão significativa no Brasil – o segmento mais dinâmico entre todas as categorias de fundos, com alta de quase 39% no semestre. Apesar desse movimento, a participação dos investidores de alta renda e de private banking permanece quase inexistente, ficando em torno de 0,6% da carteira desses clientes.

Os números divulgados pela Anbima revelam que, enquanto o varejo tradicional chegou a superar os 40% de crescimento, a parcela de ETFs dentro das carteiras privadas só avançou de 0,54% para 0,66%. Em termos absolutos, isso significa que quem detém mais de R$ 10 milhões ainda concentra seus recursos em produtos mais personalizados, ignorando a proposta de simplicidade e baixo custo dos ETFs.

Por que os ultra-ricos ainda não adotam os ETFs?

Especialistas apontam três razões principais. Primeiro, o acesso a consultorias sofisticadas e ativos offshore permite que esses investidores comprem ETFs de renda fixa global e de ações americanas diretamente em contas fora do país, o que os relatórios da Anbima não capturam. Segundo, o private banking oferece serviços de personalização fiscal, proteção sucessória e mandatos exclusivos que o ETF não supre. Por fim, a possibilidade de compor carteiras por meio da compra direta de ações ou títulos elimina a taxa de administração e facilita a compensação de perdas ao nível de cada título.

Na prática, gestores de patrimônio como a Ghia Multi Family Office revelam que cerca de 25% do patrimônio total está alocado fora do Brasil, e quase 90% dessa fatia está em ETFs. Somando os fundos locais, a presença total de ETFs poderia alcançar perto de 40% dos ativos desses clientes, mas ainda não se reflete nas estatísticas domésticas.

Preferência por estruturas customizadas

Para quem paga por assessoria premium, o custo baixo dos ETFs pesa menos diante de vantagens como planejamento tributário sob medida criação de holdings patrimoniais e negociação individual de taxas. A compra direta de ações, por exemplo, permite otimizar o tax loss harvesting título a título, algo que um fundo de índice padronizado não oferece.

Na Blackbird Investimentos, aproximadamente 30% da exposição em ETFs dos clientes de alta renda se dá por meio de contas internacionais, destacando a preferência por ETFs americanos de baixo custo. A Suno Consultoria aponta que, considerando Brasil e exterior, os ETFs representam cerca de 15% do patrimônio total dos investidores que atendem.

O panorama global e a virada apontada pelo BCG

O Boston Consulting Group (BCG) publicou, em seu Global Asset Management Report 2026, um diagnóstico que reforça a tendência observada no Brasil. O estudo indica que a indústria mundial de fundos, hoje avaliada em cerca de US$ 147 trilhões, está cada vez mais polarizada entre duas superestruturas: gestoras que buscam escala e custos enxutos com produtos passivos, e aquelas que apostam em alfa por meio de estratégias altamente especializadas.

Essa divisão cria um “vácuo” no meio-term, onde antes existiam os fundos multimercado que tentavam reunir diversas estratégias em um único produto. No Brasil, esse modelo começou a ser substituído por carteiras “de blocos”, onde cada ETF funciona como uma peça de Lego permitindo ao investidor montar o portfólio com eficiência regulatória, liquidez e transparência.

Apesar de ainda representar menos de 1% do total de ativos de fundos no país (cerca de R$ 12-13 trilhões), o BCG acredita que o segmento está apenas no início de sua jornada. A limitação principal vem da menor liquidez do mercado acionário brasileiro em comparação com o americano, reduzindo o leque de combinações possíveis. Contudo, o aumento da oferta local – sobretudo em renda fixa – e a migração para modelos de remuneração por taxa fixa (fee-based) estão impulsionando a adoção.

Os gestores entrevistados concordam que, para clientes de alta renda, os ETFs podem ser úteis como ferramentas táticas: hedge de índices, exposição rápida a um tema ou região, ou ainda para gerir a duration de carteiras de renda fixa. Ainda assim, áreas como small caps locais, crédito privado e situações especiais (special situations) permanecem difíceis de ser cobertas por ETFs, preservando a demanda por gestores ativos.

Essa dinâmica deve abrir espaço para que investidores brasileiros de maior patrimônio passem a integrar mais ETFs, sobretudo quando a oferta internacional for facilitada por plataformas de custódia offshore mais acessíveis.