Nos últimos dias o Ibovespa registrou um leve rali, atingindo a marca de 186 mil pontos após uma sequência de alta de 0,74%. O movimento foi impulsionado por um maior apetite ao risco nos mercados internacionais, pela queda dos rendimentos dos Treasuries norte-americanos e, sobretudo, pela expectativa de uma possível mudança de governo nas próximas eleições. Esse cenário renovado trouxe à tona diversas avaliações de quem acompanha o mercado de capitais.
Visões divergentes dos analistas
Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton Brasil, descreve o panorama como binário a manutenção da política econômica atual ou um ajuste fiscal mais rígido caso a oposição vença. Ele aponta que o preço-lucro médio das empresas está em torno de 9 vezes, bem abaixo de países como Chile (13x) e Peru (14x). Para Sampaio, se o P/L voltar à média histórica, o índice poderia subir de 186 mil para 230 mil pontos – um ganho de 24 %. Contudo, se o ajuste fiscal não se confirmar, há risco de recuo para cerca de 160 mil pontos.
Leonardo Mendes, consultor da Manchester Investimentos, acredita que a decisão do Fed de subir juros provocou uma deterioração do mercado, mas a disputa eleitoral brasileira adiciona um viés de alta. Ele vê a trajetória da Selic como estruturalmente descendente, independentemente do vencedor, e recomenda permanecer próximo ao Ibovespa, alocando em blue chips e commodities. Seu portfólio modelo inclui 60 % replicando as 20 maiores ações e 40 % em empresas com bons dividendos, como Petrobras, Vale, CSN e bancos tradicionais.
Já Rachel de Sá, estrategista da XP Investimentos, adota um tom mais cauteloso. Ela destaca a deterioração do cenário global – petróleo em alta, juros americanos em elevação e dólar fortalecido – que pode pesar sobre a bolsa brasileira. Internamente, o fenômeno do El Niño e a incerteza fiscal apontam para possíveis pressões inflacionárias.
Estratégias recomendadas para o curto prazo
Todos concordam que, no momento, os múltiplos estão próximos de suas mínimas históricas, o que atrai investidores em busca de valor. Sampaio favorece ações com alta liquidez, como as chamadas blue chips e evita setores altamente alavancados, como o varejo de crédito. Entre as favoritas estão empresas ligadas ao mercado de capitais – XP (XPBR31), B3 (B3SA3) e BTG Pactual (BPAC11) – que se beneficiariam de juros mais baixos. Também recomenda papéis regulados que pagam dividendos robustos (8 % a 10 % ao ano), como saneamento e energia, além de bancos baratos, com destaque para Itaú Unibanco (ITUB4).
Para Mendes, a postura mais segura é manter a exposição ao índice, privilegiando ações blue chips e commodities. Ele destaca a resiliência da Petrobras, cujos fluxos de caixa permanecem fortes com o barril próximo a US$ 105, bem como a estabilidade de mineradoras como Vale (VALE3) e CSN (CSNA3). O objetivo é montar uma carteira que reflita o desempenho das 20 maiores empresas, complementada por dividendos consistentes.
Riscos políticos e externos que podem mudar o jogo
O fator eleição permanece como a maior incógnita. Pesquisas recentes mostram empate técnico entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) para um possível segundo turno. Esse equilíbrio tem feito o MSCI Brazil registrar ganhos atípicos – cerca de 0,72 % por dia em que Flávio avança nas plataformas de mercado preditivo. Ainda assim, investidores estrangeiros permanecem cautelosos, enquanto investidores locais buscam papéis de maior beta como Localiza, EcoRodovias e Vamos, buscando potenciais retornos diante de um cenário macro volátil.
Além da política interna, a bolsa ainda sente a influência de variáveis externas: a recente queda nos preços do petróleo, embora tenha pressionado as ações da Petrobras, também reduziu a pressão inflacionária global. Por outro lado, a alta dos rendimentos dos títulos americanos e a força do dólar podem gerar fluxo de saída de capitais emergentes.
Desempenho recente e setores em evidência
No pregão mais recente, o Ibovespa oscilou entre 185.247 e 187.434 pontos, encerrando em 186.596, impulsionado principalmente pelas ações de bancos. O B3 (B3SA3) liderou com alta de 3,64 %, enquanto as units do BTG Pactual subiram 3,42 %. Entre os bancos, o Banco do Brasil recuou 0,91 % após forte valorização ao longo do mês, indicando lucro-taking. As ações da Vale caíram 1,12 % pelo segundo dia consecutivo, refletindo temores de queda nos preços do minério de ferro e elevação das tarifas de frete marítimo. A Petrobras encerrou a sessão com baixa de cerca de 1 % devido à queda do preço do petróleo pela quarta sessão seguida.
O volume negociado na B3 chegou a R$ 27,7 bilhões, sinalizando forte participação de investidores locais. Enquanto isso, os principais índices de Wall Street registraram alta (Nasdaq +2,26 %, S&P 500 +1,49 %, Dow Jones +0,71 %), reforçando o efeito de um ambiente de maior risco global sobre o mercado brasileiro.
Em síntese, o consenso aponta para um momento de oportunidade, mas também de cautela. A escolha das ações deve ponderar o barato histórico, a exposição setorial e a sensibilidade a eventos políticos e macroeconômicos. Quem já possui posição na bolsa é aconselhado a ponderar ajustes apenas após a definição dos resultados eleitorais, enquanto novos investidores podem iniciar uma alocação com horizonte de pelo menos cinco anos, contando com a tendência de queda da Selic para sustentar a alta da Bolsa.



