O Brasil está em uma encruzilhada estratégica no que diz respeito à atração de data centers. Para se tornar um hub internacional, o país precisa ir além de incentivos fiscais e adotar uma abordagem integrada que envolva energia, tecnologia e regulação.
Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) encomendado pelas empresas Scala Data Centers e Norgas destaca que os países líderes em infraestrutura digital combinam escala de capital, energia firme e barata, e governança regulatória estável.
Os pilares para o sucesso dos data centers no Brasil
Para competir globalmente, o Brasil precisa estabelecer uma agenda estratégica integrada que articule políticas industriais, reconhecimento da especificidade dos data centers no setor elétrico, um regime jurídico estável de incentivos fiscais e coordenação regulatória.
O estudo da FGV propõe a criação de um grupo especial denominado Brasil Hub Digital – Setor Energia coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e integrado por diversas entidades para analisar e propor medidas para a agenda integrada.
Os desafios energéticos e regulatórios
Um dos principais desafios é a dependência de fontes intermitentes de energia. O projeto de lei Redata que estabelecia um regime tributário especial para empresas de data centers, foi rejeitado pelo Senado em fevereiro de 2026 por não incluir fontes como energia nuclear, biometano e gás natural.
Os data centers exigem enormes quantidades de eletricidade, e a energia nuclear e o gás natural são essenciais para garantir a estabilidade do fornecimento. O Brasil precisa virar a página da negligência com a energia nuclear e explorar seu vasto potencial de recursos humanos qualificados e reservas de urânio.
O impacto global e as lições dos EUA
Nos Estados Unidos a construção de data centers tem gerado tensão eleitoral e revolta popular. Em Saline, Michigan um projeto de US$16 bilhões enfrentou resistência dos moradores preocupados com o impacto no abastecimento de água e na rede elétrica.
Essa tensão reflete um mal-estar mais amplo em relação ao futuro da inteligência artificial e ao poder corporativo. No Brasil, é essencial aprender com essas experiências e adotar um planejamento integrado que considere os impactos locais e a sustentabilidade.
A chegada dos data centers reforça a necessidade de o Brasil virar a página da negligência com o uso da energia nuclear para a geração elétrica, deixando subaproveitado o seu vasto potencial de recursos humanos qualificados (atualmente ameaçados pela retirada de toda uma geração de técnicos e cientistas frustrados com o abandono do setor), além das suas grandes reservas de minério de urânio, largamente subexploradas.
Igualmente, as novas tecnologias requerem que seja virada, de vez, a página da adesão incondicional do país ao “globalismo”, vigente desde a década de 1990, e de seus preconceitos ideológicos contra o planejamento da economia nacional, que foi um instrumento fundamental para o período áureo de desenvolvimento brasileiro entre 1930 e 1980.
Um bom começo para o enfrentamento dos desafios citados pode ser a proposta da FGV para a criação de um grupo especial denominado Brasil Hub Digital – Setor Energia, coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e integrado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e por representantes do setor e da academia, para analisar, planejar e propor medidas e indicadores transversais para a agenda integrada.
Esperemos que prospere.



