Em um mundo onde a geopolítica está se tornando cada vez mais imprevisível, Wall Street está recorrendo a modelos preditivos para antecipar conflitos militares. Com o número de países envolvidos em conflitos externos quase dobrando desde 2008, e o impacto econômico da violência chegando a quase US$ 22 trilhões, a necessidade de prever e se preparar para esses eventos se tornou crucial.
O Citigroup Inc. e o Morgan Stanley estão entre as instituições que reconhecem a limitação dos modelos tradicionais baseados em dados históricos. Eles alertam para a necessidade de uma abordagem mais proativa e voltada para o futuro.
Modelos de Inteligência Artificial para Prever Conflitos
A Verisk Maplecroftconhecida por seus modelos de catástrofes naturais, lançou recentemente o Predictive War Index. Este modelo utiliza machine learning para estimar a probabilidade de uma guerra em um país nos próximos 12 meses. Treinado com dados políticos, econômicos e sociais de 1995 a 2026, o modelo mostrou uma eficácia significativa em testes retrospectivos.
Por exemplo, se o modelo estivesse disponível no início de janeiro, ele teria apontado uma probabilidade de 66% de eclosão de uma guerra no Irã cerca de um mês e meio depois. Além disso, a Verisk desenvolveu o Geopolitical Relations Indexque acompanha o nível de tensão entre pares de países, considerando fatores como histórico de confrontos militares e proximidade geográfica.
Previsões de Mudanças de Regime
Outro modelo da Verisk, lançado em outubro de 2026, acertou seis de sete colapsos de governo, incluindo a derrubada de Bashar al-Assad na Síria em 2026 e a remoção repentina de Nicolás Maduro na Venezuela em janeiro. Chris Boylan, especialista em ciência de dados da Verisk, explicou que a combinação de problemas econômicos e histórico de instabilidade política aumentou o risco nesses casos.
Impacto Econômico e Seguros Marítimos
A interrupção no transporte marítimo no Estreito de Hormuz destacou a vulnerabilidade de gargalos logísticos em todo o mundo. Pouco depois do início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, o Lloyd’s of London chegou a cotar prêmios de seguro de risco de guerra marítima no Estreito de Hormuz de até 1% do valor da embarcação por viagem, segundo a Moody’s.
Gordon Woo, especialista em risco catastrófico da Moody’s, afirmou que os novos modelos permitem que as seguradoras avaliem melhor como disrupções podem se espalhar por rotas marítimas e cadeias de suprimento, em vez de focar apenas nos danos físicos a ativos individuais.
Aceleração da Volatilidade Geopolítica
Tina Fordhamcofundadora da Fordham Global Foresightalerta que a volatilidade geopolítica não apenas foi normalizada, mas está acelerando. Segundo ela, os eventos em curso são consistentes com a tese de um superciclo geopolíticoonde o aumento dos vetores de risco está rompendo os mecanismos globais de contenção e provocando um número maior de choques geopolíticos.
Em 2026, esse superciclo se acelerou, servindo como um alerta para a alta liderança das empresas. A guerra já ultrapassou a agitação civil como a forma de violência política que mais preocupa empresas na hora de contratar seguros, segundo uma avaliação de risco publicada em maio pela Allianz.
A Rand Corporation também tem um modelo de inteligência artificial que transforma questões complexas e incertas, como mudança de regime, em estimativas concretas de probabilidade. O modelo se apoia, em parte, na agregação de opiniões de pessoas que não são especialistas no tema para projetar cenários futuros. Quando foi rodado em meados de maio, apontou 20% de probabilidade de o regime iraniano não sobreviver até 2027.
Anthony Vassalo, diretor da RAND Forecasting Initiativeexplicou que os resultados são desenhados não apenas para descrever o que pode acontecer, mas para mostrar aos formuladores de políticas públicas como ações específicas alterariam essas probabilidades na prática.
Modelos tradicionais muitas vezes deixam de funcionar no cenário atual porque eventos como um bloqueio comercial ou a imposição de sanções econômicas não se comportam como um movimento de desvio-padrão dentro de uma distribuição normalafirmou Krishan Sharma, vice-presidente sênior de gestão de risco de modelos do Citi. Isso muda completamente a distribuição.
Especialistas em modelagem agora estão analisando cenários de conflito da mesma forma que analisariam um ataque terrorista, em que atos de custo relativamente baixo podem gerar perdas econômicas desproporcionaisdisse Gordon Woo.
Com os novos modelos, as seguradoras conseguem avaliar melhor como disrupções podem se espalhar por rotas marítimas e cadeias de suprimento, em vez de focar apenas nos danos físicos a ativos individuais, afirmou Woo.
Além de recorrer a anos de experiência na modelagem de catástrofes naturais, os especialistas em risco também estão incorporando metodologias usadas para prever outras ameaças, como greves, motins e distúrbios civis.
Segundo a Verisk, os modelos mais recentes permitirão que as seguradoras integrem uma visão preditiva da guerra aos seus fluxos de subscrição e de gestão de exposição.
Essas ferramentas estão se tornando essenciais para profissionais do mercado financeiro que tentam operar em um mundo fragmentado e multipolarà medida que o antigo mundo moldado pela eficiência impulsionada pela globalização sai de cena, afirmou o Morgan Stanley Institute em relatório publicado em abril.



