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22 maio 2026

Crescimento dos ETFs de renda fixa e suas implicações fiscais

Adoção do modelo fee-based, decisões fiscais e necessidades de caixa institucional ajudaram ETFs de renda fixa a alcançar R$ 51 bilhões; entenda as regras que definem alíquotas e a dinâmica do mercado

Crescimento dos ETFs de renda fixa e suas implicações fiscais

O mercado brasileiro de ETFs de renda fixa tem mostrado um avanço acelerado: o patrimônio investido nesses produtos atingiu R$ 51 bilhões, quase seis vezes o AuM de dezembro de 2026. Lançados em 2019, esses veículos agora superam, em patrimônio, os ETFs voltados apenas a ações negociados localmente, que somam R$ 36 bilhões — ou R$ 55 bilhões se incluirmos ETFs de ações no exterior. Esse movimento ocorre em um ambiente onde a conjuntura de juros é apenas um dos elementos explicativos.

Além do cenário macroeconômico, duas transformações estruturais ajudaram a acelerar a entrada de capital: a adoção gradual do modelo fee-based e a maior clareza sobre a tributação desses fundos. O modelo fee-based faz com que o assessor seja remunerado diretamente pelo cliente, reduzindo incentivos a vendas por comissão — algo relevante para produtos com comissões muito baixas, como os ETFs. Paralelamente, consultores passaram a destacar vantagens fiscais, como a ausência de come-cotas e de IOF nos primeiros 30 dias em comparação com fundos tradicionais.

Tributação e regras que mudaram o jogo

A clareza sobre a tributação foi fundamental para remodelar estratégias: até 2026 havia dúvidas sobre como classificar ETFs que investem em LFTs — títulos públicos pós-fixados atrelados à Selic. A Secretaria do Tesouro Nacional orientou que esses ETFs seriam enquadrados como de curto prazo e tributados a 25%, acima dos 22,5% aplicáveis quando o investidor compra títulos diretamente. Em contrapartida, ETFs com parte da carteira em títulos prefixados ou indexados à inflação e cujo prazo médio ultrapasse 720 dias passaram a ter alíquota de 15%, o que motivou ajustes e novos lançamentos.

Consequências práticas dessa classificação

Com a regra mais transparente, gestores revisaram portfólios para otimizar a carga tributária. Alguns fundos mantêm exposição exclusiva a LFTs e suportam a alíquota de 25% por conta da simplicidade operacional; outros introduziram papéis de longo prazo para elevar o prazo médio e atingir a alíquota menor. Esse trabalho de engenharia de prazo influenciou a oferta e estimulou novos lançamentos no setor.

Como gestores e produtos se adaptaram

Há exemplos claros de adaptação: produtos destinados a investidores institucionais usam ETFs para gerir liquidez diária e reduzir custos operacionais. O BLFT11, gerido pelo Bradesco, destaca-se como o maior ETF de renda fixa, com cerca de R$ 10 bilhões alocados exclusivamente em LFTs. Gestoras especializadas também cresceram rapidamente: a Investo aumentou seu AuM de R$ 1,8 bilhão em janeiro de 2026 para R$ 10 bilhões atualmente, impulsionada pela demanda de pessoas físicas, institucionais e empresas que buscam aplicações para caixa.

Exemplos de ajuste de carteira

Um caso prático é o LFTB11, que passou a investir cerca de 8% da carteira em NTN-B 2060 para elevar o prazo médio para aproximadamente 760 dias e, assim, obter a alíquota de 15%. Enquanto parte do mercado permanece concentrada em LFTs (sujeitas a 25%), a busca por eficiência tributária explica a reconfiguração de várias carteiras.

Demanda, custos e o futuro da oferta

O apetite do investidor também mudou a oferta: a XP lançou oito ETFs de renda fixa em seis meses, com exposição a títulos pós, pré e indexados à inflação, atraindo atenção massiva dos clientes. A mudança na tributação de fundos exclusivos e a adoção do modelo fee-based levaram muitos a buscar alternativas com vantagens tributárias. Contudo, nem todo investidor se beneficia automaticamente — a taxa de administração média dos ETFs de renda fixa, em torno de 0,25%, pode ser superior à de fundos exclusivos no segmento de alta renda, o que faz gestores de patrimônio recomendarem alternativas caso sejam mais baratas.

Perspectivas sobre taxas e novos produtos

Se o mercado continuar a crescer, há espaço para compressão de taxas e maior competitividade — chegando, em tese, a níveis muito baixos verificados no exterior, como a faixa de 0,03% em alguns ETFs americanos. Ao mesmo tempo, há demanda por ETFs de crédito privado, mas o lançamento depende de definição tributária: existe debate entre Anbima e o Tesouro sobre alíquotas aplicáveis (15% ou 25%). Gestores afirmam que produtos pré-operacionais só serão disponibilizados ao público após resolução desse ponto.

Conclusão

O crescimento para R$ 51 bilhões ilustra que, além de juros e liquidez, fatores institucionais e regulatórios moldaram a expansão dos ETFs de renda fixa no Brasil. A combinação entre estrutura fee-based, clareza tributária e necessidade de gestão de caixa por parte de empresas e instituições criou um ambiente favorável. Ainda assim, a decisão por ETFs depende do perfil do investidor, do custo efetivo e da evolução das regras fiscais — variáveis que continuarão determinando a trajetória do mercado.

Autor

Susanna Cardinale

Susanna Cardinale encontrou uma série de cartas antigas no arquivo paroquial de Verona, fonte para uma investigação sobre a memória da cidade; atua como colaboradora histórica e elabora dossiês e guias temáticos. Estudou literatura e participa de leituras públicas em livrarias de Verona.