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Como family offices equilibram risco e oportunidade em um mundo geopolítico complexo

Em conversas com clientes e em pesquisas com family offices, a mensagem é clara: a preocupação com a geopolítica permanece elevada, mas isso não se traduziu em aversão pura ao risco. Segundo Francisco Rosemberg, head de wealth e family office para a América Latina na BlackRock, ser excessivamente defensivo tem um custo real para o patrimônio. A volatilidade e a instabilidade, embora indesejadas, costumam abrir janelas para realocar capital, tanto em mercados públicos quanto em privados, criando oportunidades que um posicionamento completamente conservador deixaria passar.

Nas últimas décadas houve uma mudança profunda na construção de carteiras: de abordagem centrada em produtos para uma visão integrada de portfólio. Em termos práticos, o papel do assessor deixou de ser apenas o de um vendedor e passou a ser o de um arquiteto de patrimônio. Essa profissionalização acelera há cerca de quinze anos e ganhou ritmo nos últimos cinco, alterando decisões que antes seguiam o padrão 60/40. Hoje, gestores e clientes discutem estruturas como 50/30/20, com cerca de 20% alocado a ativos alternativos.

Por que ativos alternativos têm mais relevância

Uma razão prática para aumentar a participação em alternativos é a transformação do ciclo de vida empresarial: muitas companhias permanecem privadas por mais tempo, reduzindo o universo de oportunidades acessível apenas via ações listadas. Assim, private equity, crédito privado e infraestrutura deixam de ser nichos exclusivos para se tornarem partes relevantes do universo investível. A democratização desses ativos foi possível via estruturas mais líquidas, como evergreen ou fundos semi-líquidos, que ampliaram o acesso para investidores de wealth que antes ficavam de fora.

Riscos e as manchetes

Com a expansão do crédito privado e estruturas menos líquidas, vieram desafios: alguns veículos enfrentaram pedidos de resgate simultâneos e houve um aumento moderado de defaults. O problema real não foi necessariamente o funcionamento dos fundos, mas a percepção amplificada pelas manchetes — “gestores não permitem saques” — que provoca pânico entre investidores menos experientes. Na prática, muitos desses veículos operaram conforme os prospectos; porém, a entrada de investidores novos e menos acostumados a produtos ilíquidos elevou o risco comportamental e tornou essencial a educação sobre liquidez e calendário de resgate.

Como mudaram as alocações e os mercados de interesse

Apesar do ambiente externo desafiador, famílias e investidores de alta renda aumentaram exposição em ações, diversificaram para mercados emergentes e mantiveram apetite por crédito privado e infraestrutura. A BlackRock adota posição overweight em ações dos EUA e em bolsas de emergentes, impulsionada pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial nos EUA e pelo potencial de empresas que já começam a converter esse investimento em receitas. A América Latina aparece com vantagens setoriais, sobretudo em recursos necessários para a infraestrutura associada à tecnologia, mas precisa transformar esse potencial em atratividade de capital de longo prazo mediante reformas e previsibilidade.

ETFs, fee-based e o papel da gestão ativa

A migração do modelo transacional para o fee-based tem sido decisiva na mudança de comportamento dos investidores. Enquanto nos EUA cerca de 65% da indústria já opera no modelo fee-based, na América Latina a participação é estimada em 15% — com cerca de 35% dos recursos offshore latino-americanos sob esse modelo e níveis locais ainda mais baixos. Essa transição favorece instrumentos eficientes em custo, como ETFs, e acelera a adoção de carteiras-modelo: no fim de 2026 esse mercado nos EUA somava US$ 5,4 trilhões, com expectativa de crescimento até 2030. A discussão sobre gestão ativa deixou de ser binária; a pergunta relevante agora é se a gestão entrega alfa líquido de taxas, seja em fundos tradicionais ou em ETFs ativos, que têm avançado em várias jurisdições (ainda vetados no Brasil).

Em síntese, a mensagem que Rosemberg transmite é prática: a instabilidade não obriga à inércia. É preciso combinar instrumentos públicos e privados de forma eficiente, proteger liquidez adequada e buscar gestores capazes de realmente superar benchmarks após custos. Para investidores e family offices, a chave passa por assessoria sofisticada, filosofia de longo prazo e disciplina na execução para transformar risco em oportunidade sem cair nas armadilhas das manchetes.

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