A Opep organização que há mais de seis décadas influencia o mercado global de petróleo, enfrenta um período de incerteza. A possível saída da Venezuela membro fundador, e a recente retirada dos Emirados Árabes Unidos levantam questões sobre a capacidade do grupo de manter sua unidade e controle sobre os preços do petróleo.
Esses desenvolvimentos ocorrem em um cenário onde a Opep já vê sua influência diminuir diante do avanço de concorrentes como os produtores de shale dos Estados Unidos além do Brasil e da Guiana. A guerra envolvendo o Irã e o crescente protagonismo da China como agente de equilíbrio do mercado também adicionam pressão ao grupo.
Impacto simbólico e prático da saída da Venezuela
A saída da Venezuela teria um impacto simbólico significativo para a Opep. O país é reconhecido como um dos principais articuladores da criação da organização em 1960, graças aos esforços diplomáticos de Juan Pablo Pérez Alfonzo então ministro do Petróleo venezuelano. Além disso, a Venezuela detém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, que poderiam ser desenvolvidas nas próximas décadas com o apoio das grandes petroleiras americanas.
No curto prazo, a saída da Venezuela teria um efeito limitado na oferta global de petróleo. A produção do país despencou nos últimos anos devido às sanções e à crise econômica, deixando-o isento dos acordos de corte de produção e do sistema de cotas da Opep. Apesar dos planos para possíveis acordos com os Estados Unidos não há perspectiva de uma forte expansão da produção no horizonte próximo.
Pressão crescente dentro do cartel
A saída dos Emirados Árabes Unidos não é um caso isolado. Abu Dhabi anunciou sua retirada no fim de abril, após anos de frustração com os limites de produção impostos pela organização. Antes dos Emirados, outros quatro países deixaram a Opep na última década, incluindo a Angola cuja saída em 2026 foi marcada por forte desgaste.
O Iraque que há muito tempo resiste às restrições impostas pela organização, também começou a demonstrar insatisfação após a saída dos Emirados. Em junho, Bagdá alertou que poderia considerar deixar o grupo caso não obtenha um limite maior de produção em uma auditoria sobre a capacidade dos membros. A revisão deve ser concluída no fim do próximo mês.
Cenário geopolítico em mudança
A Opep está travando o que começa a parecer uma batalha perdida contra mudanças profundas na geopolítica do petróleo. A redução do número de membros e dos volumes representados pelo grupo significa que sua influência sobre o mercado mundial está diminuindo. Os Estados Unidos ganham relevância do lado da oferta, enquanto a China emerge cada vez mais como um ator decisivo do lado da demanda.
Enquanto o conflito envolvendo o Irã mantém grandes volumes de produção paralisados na Arábia Saudita no Iraque e no Kuwait a margem de atuação da Opep permanece reduzida. Esse cenário, porém, pode mudar caso a guerra seja resolvida. Projeções de instituições como a Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que o mercado global poderá entrar em situação de excesso de oferta se os fluxos de petróleo do Golfo Pérsico forem plenamente retomados, com risco de uma superoferta já em 2027.
O que parece estar por vir é um período de volatilidade sem precedentes, no qual o papel e a relevância da Opep poderão ser fundamentalmente redefinidos.



