Uma decisão judicial do estado de Goiás ordenou medidas urgentes para localizar recursos desviados em um esquema envolvendo criptoativos. A magistrada Fláviah assinou o despacho no sábado (16), determinando que o Banco Central do Brasil e a Receita Federal do Brasil realizem uma busca ativa nas transações relacionadas ao caso, incluindo o rastreamento do endereço de carteira identificado nos autos: 0x663c31c889737e2b399b6c1d36bad6b9f6f81a32. A medida visa preservar o patrimônio da vítima e viabilizar o prosseguimento do inquérito para recuperação dos valores.
Como funcionou o golpe
Segundo a ação, o investidor identificado como Rodolfo foi atraído para um grupo de conversas em aplicativo por interlocutores que prometiam lucros expressivos com uso de inteligência artificial em uma plataforma chamada Iguabit. A aproximação inicial foi feita por uma suposta assistente que se apresentou como Elena Brooks. Em pouco tempo, o autor realizou doze depósitos consecutivos, totalizando cerca de R$ 169 mil. Em seguida, os fraudadores converteram o dinheiro fiduciário em unidades de Ethereum e transferiram os saldos para endereços protegidos, enquanto o usuário passou a sofrer bloqueios ao tentar resgatar os ativos.
Ordens judiciais e alvos da investigação
O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) determinou a quebra de eventuais registros que permitam identificar os responsáveis nas redes descentralizadas. O despacho encaminha aos órgãos federais a tarefa de rastrear transferências e apontar os caminhos dos recursos, sob pena de responsabilização em caso de inércia. Além do endereço acima mencionado, as apurações apontam que as primeiras transferências saíram de contas movimentadas via Mercado Pago e movimentações no Banco do Brasil, o que levou a juíza a reconhecer falhas nos protocolos de segurança.
Roteiro de prova e medidas técnicas
Os peritos designados deverão cruzar registros eletrônicos e fiscais com os dados governamentais para traçar o trajeto exato dos fundos. A decisão requer o uso de ferramentas capazes de mapear operações em blockchain, assim como de vincular o endereço de carteira blockchain a identidades reais. No entanto, o próprio despacho admite uma dúvida prática: não está explicitado se as agências estatais já dispõem de recursos técnicos suficientes para decodificar determinadas movimentações na rede Ethereum, o que pode exigir parcerias com especialistas privados.
Pedidos negados e caminho para conciliação
A defesa do autor tentou obter o bloqueio imediato dos saldos das instituições que processaram as transferências iniciais, na tentativa de garantir a restituição emergencial. O tribunal, contudo, indeferiu o pedido preventivo, ressaltando a necessidade de garantir o direito de resposta prévia e o contraditório das empresas envolvidas. Com a medida negada, as partes foram convocadas para uma audiência de conciliação no fórum local, onde se buscará um acordo para a devolução do capital subtraído.
Desafios para rastrear fundos em redes públicas
Rastrear valores em redes públicas exige combinação de análise forense em blockchain e informações off-chain fornecidas por plataformas e intermediários. Especialistas apontam que, apesar da transparência das transações, mecanismos de mistura, contratos inteligentes e serviços de custody podem dificultar a identificação final dos beneficiários. A ação em Goiás requer, portanto, não só a investigação das transações on-chain, mas também o cruzamento de cadastros e registros bancários para tentar transformar um hash ou endereço em um titular real.
Implicações para usuários e instituições
O caso expõe a necessidade de maior atenção por parte tanto dos consumidores quanto das instituições financeiras: usuários devem desconfiar de promessas de ganho fácil e verificar a reputação de plataformas como a Iguabit, enquanto bancos e fintechs precisam fortalecer controles de prevenção a fraudes que impeçam o envio automático de grandes somas para exchanges ou carteiras externas. Reguladores também enfrentam o desafio de dotar órgãos públicos com ferramentas adequadas para o rastreio de criptoativos e cooperação internacional quando as rotas atravessam fronteiras.
Até o momento, o processo segue com as diligências autorizadas pela juíza Fláviah e com a perspectiva de uma tentativa de conciliação entre as partes. O episódio — apontado na manchete como um golpe que levou R$ 170 mil e descrito no corpo do processo como perdas de R$ 169 mil — servirá como referência para debates sobre responsabilidade de plataformas, lacunas de proteção e a necessidade de aprimorar técnicas de investigação em redes descentralizadas.
