O mercado de cripto ganhou novo fôlego com o Bitcoin subindo de US$ 60.000 para US$ 80.000 nos últimos meses, e no centro dessa dinâmica está a empresa conhecida como Strategy (BDR: M2ST34). A companhia detém hoje 818.334 unidades da criptomoeda, compradas por cerca de US$ 61,8 bilhões, o que a coloca como a maior compradora corporativa de bitcoin entre empresas listadas. Esse acúmulo não foi financiado pelo caixa operacional tradicional, mas por um conjunto de emissões estruturadas que transformaram a Strategy numa verdadeira fábrica de captação direcionada ao BTC.
A estratégia comandada por Michael Saylor converteu uma empresa de software analítico em um veículo cujo ativo central é o Bitcoin. Para sustentar compras em escala, a Strategy recorre a três canais principais de mercado: venda gradual de ações ordinárias na Nasdaq sob o ticker MSTR, emissão de instrumentos híbridos que se assemelham a títulos e a criação de ações preferenciais com rendimento. O resultado é um mecanismo contínuo de fluxo de caixa que financia aquisições, mas que também cria uma teia de riscos e dependências no mercado de capitais.
Como a Strategy financia as compras
A primeira fonte de capital é a venda de ações ordinárias via ATM (at-the-market): um procedimento que permite ao emissor vender papéis gradualmente ao preço de mercado, sem oferta pública tradicional. Em paralelo, a empresa emite instrumentos que lembram títulos de crédito, como notas conversíveis, e lançou uma família de ações preferenciais que pagam rendimento. Em 2026, a Strategy captou US$ 25,3 bilhões e adquiriu mais de 225.000 BTC; o plano divulgado prevê emitir US$ 42 bilhões entre 2026 e 2027, metade em ações e metade em crédito.
Mecanismos e termos-chave
O uso do ATM permite flexibilidade para captar em momentos favoráveis, enquanto as notas conversíveis dão a investidores a opção de converter dívida em ações. Entre os instrumentos criados, destacam-se as séries de preferenciais: STRK, STRF, STRD e a mais inovadora, a STRC (chamada Stretch). Um indicador que ajuda a explicar a diferença entre possuir a ação e manter bitcoin é o mNAV (múltiplo sobre o valor dos ativos): esse múltiplo mostra quanto o mercado paga pela ação em relação ao valor do BTC em tesouraria.
STRC: o motor de baixa volatilidade
A STRC foi desenhada para manter seu preço próximo de US$ 100 por meio de uma taxa de rendimento variável, que sobe ou desce para atrair compradores quando o papel se afasta do valor de face. Essa estrutura cria um produto de renda relativamente estável: segundo a própria companhia, a volatilidade da STRC foi de cerca de 2% nos últimos 30 dias, comparada a 55% do Bitcoin no mesmo período. A STRC transfere a oscilação do BTC para a ação ordinária MSTR, protegendo o investidor preferencial da montanha-russa das criptomoedas.
De onde vem o rendimento
O pagamento da STRC não sai do software da empresa nem diretamente dos bitcoins no caixa; ele é sustentado pela emissão contínua de MSTR via ATM, que alimenta uma reserva em dólares usada para remunerar os papéis preferenciais. A matemática exposta pela administração parte da premissa de que o Bitcoin terá alta anual consistente (projeções internas citam algo na ordem de 30% ao ano), o que tornaria viável pagar 8%–11% aos detentores das preferenciais. Essa conta, no entanto, depende da continuidade do ciclo de valorização e do acesso ao mercado para novas emissões.
Riscos e pontos de atenção
Há riscos concentrados na operação. Um deles é a dependência da Strategy como grande emissora: a empresa foi responsável por cerca de 70% de todo o dinheiro novo que entrou no Bitcoin no último ano, segundo analistas, o que cria um ponto único de falha caso a capacidade de captação se limite. O relatório do primeiro trimestre de 2026 trouxe outra novidade: a administração admitiu que vendas de BTC podem ocorrer para financiar dividendos, o que quebra o mantra anterior de “nunca vender bitcoin” e levanta questões sobre liquidez estrutural.
Outros vetores de risco incluem a compressão do prêmio no mNAV — hoje próximo de 1,2, reduzindo a vantagem de emitir ações para comprar BTC — e fatores exógenos como regulação e custódia. Há também imitadores menores, como iniciativas de debêntures lastreadas em BTC no Brasil, mas seu tamanho é insuficiente para replicar o impacto da Strategy em caso de reversão do fluxo.
Como investidores no Brasil podem acessar
O acesso mais direto para investidores brasileiros é via BDR da ação ordinária, negociado na B3 como M2ST34, tributado como renda variável (15% sobre ganhos em operações comuns e 20% em day trade). Para comprar preferenciais como a STRC é preciso conta em corretora com acesso à Nasdaq. Um detalhe prático importante: os pagamentos da STRC são estruturados como retorno de capital, não sofrendo a retenção de 30% nos EUA, mas vale confirmar o tratamento junto à corretora para garantir a forma correta de tributação.
Com o Bitcoin próximo de US$ 80.000 e a Strategy caminhando rumo a quase um milhão de unidades no balanço, a máquina de captação segue ativa. Para investidores, o desafio é avaliar se a remuneração e a baixa volatilidade aparente compensam a dependência do mecanismo de emissões e os riscos de concentração e regulação. Como disse um gestor do mercado, ou se tem uma máquina do tempo ou se decide com as informações que existem hoje — e elas apontam para uma estratégia potente, porém cheia de armadilhas.
