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Senado rejeita relatório que denunciava esquemas com Bitcoin e infiltração bancária

A rejeição do relatório final da CPI do Crime Organizado marcou o encerramento dos trabalhos sem um documento aprovado, após votação de seis votos a quatro. O parecer do relator Alessandro Vieira reunia achados sobre a atuação de facções, formas de lavagem de dinheiro e propostas legislativas para fechar lacunas no combate a crimes financeiros. Entre as sugestões estavam o aumento de multas, a agilização na apreensão de criptoativos e o uso de blockchain para rastrear metais preciosos.

Contudo, divergências políticas e substituições de integrantes do colegiado impediram o avanço das medidas.

Além da tensão política, o relatório ofereceu um panorama técnico: mapeamento de organizações criminosas, modos de operação com criptoativos e fragilidades institucionais. A peça de 220 páginas, resultado de 120 dias de trabalho, descreveu que facções agem como verdadeiros “para-Estados”, controlando territórios e gerando receitas por atividades ilícitas. Também foram apontadas falhas no rastreio de recursos digitais e a necessidade de reforço orçamentário para órgãos como o COAF, cuja carência de servidores dificulta a identificação rápida de transferências suspeitas envolvendo Bitcoin.

Como as facções usam criptoativos

O relatório descreve que grupos criminosos passaram a utilizar criptoativos para converter e movimentar valores obtidos com o tráfico, venda ilegal de ouro, contrabando e outras atividades. Operações que antes dependiam da violência de rua migraram para o campo financeiro, com estruturas que envolvem empresas de fachada, contas falsas e transferências fracionadas. O uso do Bitcoin se destaca pela descentralização, que, na prática, facilita a circulação de capitais sem o crivo tradicional de instituições bancárias, permitindo a evasão de divisas e a remessa de saldos ao exterior sem passar pelos sistemas de compliance convencionais.

Métodos e desafios de rastreio

Segundo o documento, os criminosos fragmentam grandes quantias em múltiplas transações menores para dificultar a identificação por órgãos de controle. A ausência de um sistema unificado de rastreamento de criptoativos no país aumenta a complexidade da investigação. A proposta do relator incluía sanções mais severas e ferramentas legais para acelerar a apreensão de ativos digitais, bem como a demanda por mais pessoal e tecnologia no COAF e nas forças de inteligência financeira.

Infiltração em instituições e casos ilustrativos

A CPI também apontou episódios nos quais agentes do setor privado e setores do Estado teriam sido cooptados por redes criminosas. Entre os casos investigados, surgiu o contexto do Banco Master e nomes associados a operações suspeitas, o que gerou alertas sobre a captura de partes do sistema financeiro. A investigação citou ainda a Operação Carbono Oculto, ação que demonstrou a eficácia da estratégia de descapitalização ao atingir patrimônio de organizações — a consequência prática é a redução da capacidade operacional das facções sem depender exclusivamente de prisões.

Impacto territorial e econômico

O relatório traz dados que dimensionam a presença do crime organizado: cerca de 90 organizações mapeadas, com duas delas de atuação nacional e transnacional; estima-se que 26% do território tenha algum tipo de domínio dessas estruturas e que mais de 28 milhões de brasileiros vivam em áreas com presença criminosa. A venda de cigarros, o mercado imobiliário, bebidas, fintechs, fundos de investimento e criptomoedas aparecem como vetores da lavagem de recursos ilícitos.

Medidas propostas e obstáculos políticos

Entre as sugestões do relator estavam a criação de registros em blockchain para rastrear a origem do ouro extraído ilegalmente, alterações legais para punir quem envia saldos ilícitos ao exterior e a ampliação das multas contra ocultação patrimonial com o uso de criptoativos. A sanção da Lei Raul Jungmann no final do mês de março introduziu mecanismos mais rígidos contra líderes de organizações criminosas, mas a rejeição do relatório travou outros encaminhamentos. Parlamentares como o presidente da CPI, Fabiano Contarato, pediram cautela quanto a indiciamentos de magistrados do STF, enquanto outros criticaram o que consideraram excessos no foco sobre nomes do Judiciário.

Consequências práticas

Com o arquivamento do parecer, as propostas legislativas e recomendações de aperfeiçoamento institucional ficaram sem encaminhamento formal. A bancada que se opôs ao relatório argumentou que a CPI deve manter foco investigativo e evitar ataques a instituições. Por outro lado, o relator e aliados defenderam que a pauta será retomada no futuro, sinalizando que o debate sobre Bitcoin, rastreio de ativos e cooperação internacional permanece como prioridade para o enfrentamento ao crime organizado.

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