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14 maio 2026

Resultado da Boa Safra em 1T26 é puxado por venda do SNAG11; desempenho recorrente fica fragilizado

Boa Safra (SOJA3) teve lucro consolidado reforçado por venda do SNAG11; resultado recorrente recuou e a carteira de pedidos alcançou recorde para o primeiro trimestre

Resultado da Boa Safra em 1T26 é puxado por venda do SNAG11; desempenho recorrente fica fragilizado

O desempenho financeiro da Boa Safra (SOJA3) no 1T26 traz uma leitura dupla: o grupo reportou lucro líquido consolidado de R$ 27,4 milhões, alta de 62% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas esse salto foi em grande parte explicado por um efeito pontual — a alienação das cotas remanescentes do SNAG11, o Fiagro gerido pela Suno Asset. Quando a companhia exclui esse impacto extraordinário, o indicador usado pela administração para avaliar a operação recorrente, o lucro líquido ex-SNAG11, ficou em R$ 3,7 milhões, uma queda de 36% na comparação anual.

Na apresentação dos números, o diretor financeiro e de relações com investidores, Felipe Marques, destacou que os dois resultados — o consolidado e o ex-SNAG11 — são válidos, mas servem a propósitos distintos: o primeiro incorpora o ganho de desinvestimento e o segundo sinaliza o desempenho das atividades contínuas. Segundo ele, a empresa fez a segregação para oferecer comparabilidade entre períodos e facilitar a análise da evolução operacional sem efeitos extraordinários.

Desempenho operacional e margem

A receita operacional líquida aumentou 20%, alcançando R$ 132,1 milhões, enquanto o lucro bruto evoluiu para R$ 27,1 milhões, revertendo um período praticamente neutro no 1T25 e elevando a margem bruta para 21%. O Ebitda contábil passou a positivo em R$ 9,9 milhões, ante um resultado negativo de R$ 15,5 milhões no ano anterior. Já o Ebitda ajustado permaneceu negativo em R$ 25,4 milhões, mas com melhora frente aos R$ 38,7 milhões negativos registrados no 1T25, sinalizando recuperação parcial das operações antes das despesas financeiras e ajustes não recorrentes.

Receitas fora da soja

Um movimento relevante foi o avanço das vendas além da semente de soja: a receita proveniente de novas culturas, serviços e insumos somou R$ 82 milhões no trimestre, alta de 31% ante o 1T25, e respondeu por 76% do total de vendas de sementes no período. Para a administração, esse resultado confirma que a estratégia de diversificação do portfólio está tornando o início do ano mais representativo para o faturamento, reduzindo a concentração da receita no segundo semestre.

Carteira de pedidos e sinalizações da gestão

A companhia encerrou março com uma carteira de pedidos de cerca de R$ 1,5 bilhão, recorde para um primeiro trimestre e aproximadamente R$ 100 milhões acima do mesmo período de 2026. O CEO Marino Colpo afirmou que esse indicador é talvez o principal ponto positivo do balanço, funcionando como um termômetro do que pode ocorrer ao longo do ano, especialmente porque a maior parte das entregas ocorre no segundo semestre.

Perspectiva comercial

Colpo também ressaltou que, apesar do peso reduzido do primeiro trimestre no resultado anual do negócio de sementes, a ampliação do mix de culturas tem o objetivo explícito de tornar o começo do exercício mais relevante. A leitura conjunta de carteira e da evolução das receitas de outras culturas sugere uma mudança gradual na dinâmica de vendas, com impacto direto na previsibilidade da receita ao longo dos trimestres.

Estrutura de capital e custo financeiro

A pressão sobre o lucro ex-SNAG11 veio, em grande medida, do aumento das despesas financeiras, que saltaram 78% para R$ 79,3 milhões. Os juros sobre empréstimos subiram de R$ 18,6 milhões para R$ 57,6 milhões, refletindo a incorporação dos encargos relacionados aos certificados de recebíveis do agronegócio emitidos em janeiro e setembro de 2026. Essas operações elevaram o custo financeiro no curto prazo, mas permitiram alongar o perfil da dívida da empresa.

Ao final de março, a dívida líquida consolidada estava em R$ 848,4 milhões, contra R$ 519,2 milhões no 1T25; o caixa e aplicações financeiras somavam R$ 777,2 milhões. A dívida bruta alcançou R$ 1,63 bilhão, com apenas R$ 61,7 milhões vencendo em menos de um ano, indicando que a maior parte do endividamento tem vencimentos mais longos, o que reduz o risco de refinanciamento imediato.

Em síntese, a leitura dos resultados da Boa Safra combina sinais de recuperação operacional e de expansão comercial com pressões temporárias sobre o resultado financeiro. A gestão aposta na diversificação do portfólio e na carteira de pedidos como guias para a performance ao longo do ano, enquanto ajustes na estrutura de capital explicam o movimento da rentabilidade no curto prazo.

Autor

Camilla Pellegrini

Camilla Pellegrini, natural de Gênova e ex-enfermeira, ainda recorda a noite passada no serviço de urgência de Sampierdarena quando decidiu converter a experiência clínica em conteúdos divulgativos. Na redação apoia uma abordagem rigorosa e traz consigo postais e apontamentos de turnos reais.