Na última quinta-feira, a Polícia Federal deflagrou a nona fase da Operação Compliance Zerofocando em investigações que envolvem o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Limaex-sócio do Banco Master. As buscas e apreensões, autorizadas pelo ministro do STF André Mendonçavisam desvendar possíveis esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.
As investigações têm como pano de fundo um sistema de crédito consignado vinculado à folha de pagamento dos servidores estaduais da Bahia, implementado durante o governo de Rui Costa (PT), quando Wagner era governador. Esse sistema, conhecido como Credcestatornou-se um ativo valioso para o Banco Master e seus sócios.
As origens do Credcesta e a ascensão de Augusto Lima
Em, o governo da Bahia buscava privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal)responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo. Após dois leilões frustrados, Augusto Lima surgiu com uma proposta inovadora: incluir no edital uma cláusula permitindo que o comprador operasse um cartão de crédito consignado para os servidores públicos.
Lima, que na época não tinha experiência no setor financeiro, conseguiu convencer Jaques Wagnerentão secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, a tornar o leilão mais atraente. Sua ideia foi aceita, e no terceiro leilão, a Ebal foi arrematada por 15 milhões de reais. Além disso, o governo concedeu ao Credcesta a exclusividade para operar no mercado por quinze anos.
Para operar o Credcesta, Lima precisou de um banco. Após ser recusado pelo BMGele encontrou no Banco Masterde Daniel Vorcaroum parceiro disposto a investir 25 milhões de reais no projeto. Essa parceria transformou o Credcesta em um ativo altamente lucrativo para o Master.
As investigações da Polícia Federal e as acusações contra Wagner
A Polícia Federal suspeita que Jaques Wagner tenha recebido um imóvel avaliado em R$ 2,5 milhões como propina de Augusto Lima, em troca de ações favoráveis aos interesses do Banco Master. Além disso, investiga-se o pagamento de propina do banco para uma empresa ligada a um familiar do senador.
Wagner, em discurso no Senado, rebateu as acusações, chamando de leviana a reportagem da revista Veja que mencionava sua possível envolvimento. Ele afirmou não ter relação com Daniel Vorcaro e negou qualquer envolvimento nos negócios do banco. “Aliás, eu não tenho nem CNPJ, eu só tenho CPF”, declarou o senador.
A defesa de Augusto Lima informou que as diligências da Polícia Federal eram desnecessárias, uma vez que Lima está à disposição das autoridades há seis meses para esclarecer os fatos. No entanto, as investigações continuam, e as buscas e apreensões foram realizadas em endereços ligados a Lima na Bahia, São Paulo e Brasília.
O impacto do Credcesta e as mudanças legislativas
O sucesso do Credcesta atraiu pequenos bancos, que passaram a reclamar o direito de operar no mercado. Durante o governo de Jair Bolsonaroo Congresso aprovou mudanças que permitiram aumentar o limite de empréstimos consignados e abriram o mercado para outros bancos.
No governo de Lulao ministro Fernando Haddad propôs um estudo para dar aos servidores a opção de usar 45% de sua renda com empréstimos de juros mais baixos. No entanto, a proposta foi engavetada após pressões do Congresso, supostamente ligadas a Augusto Lima, que havia saído do Master e passara a operar o Credcesta com outro banco.
As investigações da Operação Compliance Zero continuam, e os desdobramentos podem ter impactos significativos na política e no setor financeiro. Enquanto isso, Jaques Wagner e Augusto Lima permanecem sob os holofotes, com suas ações e conexões sendo escrutinadas pela Polícia Federal.



