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Justiça mantém prisão de suspeito que usava tether em esquema de lavagem

O Supremo Tribunal Federal negou um pedido de liberdade e manteve R.F.R. detido durante as apurações relacionadas à Operação Narco Azimut. Segundo a decisão, proferida pelo ministro Cristiano Zanin na segunda-feira (20), não havia fundamento jurídico para substituir a restrição cautelar, que segue em vigor enquanto a investigação corre. O pedido de soltura foi considerado uma tentativa de contornar o andamento regular do processo, conforme registro da Corte.

A manutenção da prisão reflete a preocupação das autoridades em preservar a investigação e evitar a dispersão de provas e valores relacionados aos delitos.

Paralelamente, o Ministério Público Federal apresentou denúncia contra 13 pessoas na segunda fase da operação, apontando movimentações que ultrapassaram R$ 262 milhões em 2026. A acusação descreve um esquema estruturado para ocultar recursos oriundos de crimes como tráfico internacional de drogas, rifas ilegais e apostas em plataformas sem regulamentação, crimes pelos quais os denunciados poderão responder caso a Justiça Federal receba a peça acusatória. O processo tramita em sigilo e os nomes dos denunciados não foram divulgados.

Como funcionava o esquema

A investigação descreve um fluxo financeiro desenhado para dar aparência de legalidade a dinheiro de origem ilícita. Entre os métodos identificados estão a fragmentação de operações, a distribuição de valores em diversas contas de pessoas físicas e jurídicas e o uso de empresas de fachada para intermediar transferências. A organização teria recorrido a criptoativos para movimentar parte dos valores, empregando Tether — uma stablecoin atrelada ao dólar — como meio de transferir recursos para o exterior, sobretudo aos Estados Unidos e à Europa, sem acionar os mecanismos tradicionais de controle cambial.

Uso de stablecoins e mecanismos de dissimulação

Os investigadores apontam que o uso de stablecoins foi combinado com a prática de dividir grandes somas em múltiplas transferências e contas para dificultar o rastreamento. Essa técnica, conhecida na investigação como fragmentação, envolvia pessoas físicas servindo de fachada e empresas de tecnologia usadas como pontos de passagem dos valores. Em relatórios, o MPF descreve também mecanismos informais de compensação que permitiam a movimentação de fundos em espécie e por meios eletrônicos, incluindo Pix e transferências bancárias, além das operações com criptoativos.

Papel de empresários, influenciadores e intermediários

A denúncia ressalta que o grupo tinha divisão clara de tarefas: empresários, doleiros, influenciadores digitais e pessoas ligadas ao meio musical integravam a cadeia operacional. Alguns alvos, segundo a apuração, administravam empresas de fachada e carteiras digitais para dar aparência de legitimidade às transações. Entre os pontos citados pela Polícia Federal está o controle de companhias de tecnologia por parte de investigados, que serviam para estruturar um circuito financeiro capaz de ocultar a origem dos recursos e facilitar o envio ao exterior.

Avanço das investigações e medidas judiciais

Em uma nova frente, batizada de Operação Narco Fluxo, a Polícia Federal buscou desmantelar o núcleo financeiro do grupo. Essa fase levou à prisão de alvos de relevo, como os cantores mencionados nos autos — MC Ryan e MC Poze do Rodo — entre outros. A Justiça Federal determinou o cumprimento de mandados de busca e apreensão, prisão temporária e a imposição de medidas cautelares, incluindo o sequestro de bens e valores até o limite de R$ 934 milhões, visando preservar o resultado útil da investigação e evitar a dilapidação do patrimônio ligado aos fatos apurados.

Implicações penais e próximas etapas

O Ministério Público sustenta que os fatos configuram crimes como associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A denúncia apresentada é a 12ª no âmbito das apurações e decorre do cruzamento de provas obtidas em mandados de busca e apreensão na segunda fase da operação. As autoridades destacam que os vestígios apontam para um esquema amplo, com atuação coordenada para dificultar o rastreamento das transações e dar aparência lícita aos recursos de origem ilícita. O caso seguirá em tramitação na Justiça Federal, sob sigilo, enquanto a investigação prossegue com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado em São Paulo.

Mensagem final

Para além das prisões e bloqueios, a investigação ilustra como a combinação entre tecnologias financeiras e estruturas tradicionais de ocultação pode criar dificuldades para a fiscalização. No entanto, a atuação coordenada entre Polícia Federal e Ministério Público mostra que há instrumentos processuais e técnicos capazes de identificar e perseguir circuitos de lavagem que se valem de criptoativos e de mecanismos de fragmentação para esconder recursos ilícitos.

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