Pular para o conteúdo
22 maio 2026

Investigação relaciona fundo da Refit a pagamento de R$ 14,2 milhões a empresa ligada a Ciro Nogueira

Relatório da Polícia Federal relata movimentação de R$ 14,2 milhões ligada ao fundo EUV Gladiator em favor de empresa da família de Ciro Nogueira; há divergências entre contrato, contabilidade e a versão do senador.

Investigação relaciona fundo da Refit a pagamento de R$ 14,2 milhões a empresa ligada a Ciro Nogueira

Relatórios da Polícia Federal incluídos na Operação Sem Refino apontam uma movimentação de R$ 14,2 milhões entre empresas que aparecem vinculadas ao conglomerado Refit e a uma firma registrada em nome de familiares do senador Ciro Nogueira. Segundo o documento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a movimentação consta na contabilidade da Athena Real Estate LTDA e beneficiou a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis LTDA. Em paralelo, o senador afirma que o montante decorreu da venda de um terreno de 40 hectares em Teresina e que a transação teria sido regular e devidamente declarada.

O contrato da operação foi registrado em agosto de 2026 e trata formalmente da alienação da área por valor total mencionado nas apurações. Ainda assim, há pontos de tensão entre o que consta no acordo e a apuração contábil da Polícia Federal. A assessoria do parlamentar descreve um cronograma de parcelas que, segundo a versão oficial, ainda estaria em curso, motivo pelo qual a transferência da titularidade não teria sido concluída. Já a PF relata pagamentos que, em seus registros, correspondem ao montante integral atribuído à empresa familiar.

Discrepâncias contratuais e contábeis

O documento de agosto de 2026 estabelece condições de pagamento que, na leitura da defesa, não foram concluídas até o momento. O contrato prevê três parcelas iniciais de R$ 2,5 milhões cada, seguidas de 21 mensalidades de R$ 300 mil, um esquema cujo somatório descrito pelas partes gera uma diferença em relação ao total divulgado. A soma das prestações mencionadas no contrato atinge cerca de R$ 13,8 milhões, enquanto os registros da Polícia Federal indicam que, na prática, houve movimentação de R$ 14,2 milhões em favor da empresa da família. Essa incoerência concentra parte da investigação, que busca confirmar a origem e o destino final dos recursos.

Ligação com o grupo Refit e estrutura de blindagem

A Athena aparece vinculada, segundo relatório da PF, ao fundo EUV Gladiator, cuja participação societária inclui a Eurovest S.A. A investigação sustenta que essa cadeia funciona como mecanismo de aquisição de imóveis e possível blindagem patrimonial para interesses ligados ao grupo Refit. O empresário Ricardo Magro é apontado pelas autoridades como figura central do conglomerado e alvo da Operação Sem Refino, que busca apurar suposta prática de corrupção, sonegação e uso indevido da estrutura empresarial para ocultação de ativos.

O papel da Athena e do fundo

Na análise da PF, a Athena Real Estate LTDA funcionaria como um braço do grupo para operacionalizar a compra de imóveis, movimentando valores do fundo EUV Gladiator. A investigação descreve padrão de movimentações compatível com a atuação de empresa de passagem — termo usado para definir companhias que recebem recursos e os transferem rapidamente sem justificar despesas operacionais compatíveis. Identificações dessa natureza motivaram pedidos de busca e apreensão e a coleta de documentos que embasam a representação no Supremo.

Desdobramentos, buscas e respostas

Além da apuração sobre o repasse, a Polícia Federal já cumpriu mandados relacionados a outros auxiliares do senador, como o ex-assessor que aparece nas investigações. Relatórios apontam transferências da órbita do grupo Refit a terceiros, e a PF detalhou valores que teriam circulado rapidamente, reforçando indícios de fluxo destinado a beneficiários finais. Paralelamente, Ciro Nogueira divulgou nota reafirmando que não era sócio direto da firma familiar, que sua participação era inferior a 1% à época do negócio, e que a operação foi registrada junto aos órgãos competentes como uma venda regular.

Próximos passos das apurações

As apurações devem aprofundar o rastreamento das origens e da destinação dos recursos, confrontando contratos, extratos bancários e declarações das partes envolvidas. A PF e o Ministério Público tendem a analisar documentos que demonstrem se houve efetiva transferência de propriedade, se os valores pagos correspondem às cláusulas contratuais e se houve eventual uso de estruturas societárias para ocultar bens — sempre com observância de direitos de defesa e ampla instrução probatória. Enquanto isso, o episódio alimenta debate público sobre transparência na relação entre agentes políticos e grupos empresariais investigados.

Autor

Martina Pellegrino

Martina Pellegrino propôs e coordenou o dossiê sobre a restauração dos Uffizi após uma visita ao canteiro, defendendo uma linha editorial de contextualização histórica. Redatora histórica, é conhecida por um detalhe: anota cronologias em postais antigos de Florença.