Os recentes episódios de tensão entre países e a crescente discussão sobre a sustentabilidade das contas públicas estão levando gestores familiares a repensar estratégias que, historicamente, mudavam com lentidão. Uma pesquisa do UBS com 307 Family offices distribuídos por cerca de 30 países, incluindo o Brasil, aponta que cerca de 60% dessas estruturas planejam alterar sua alocação de ativos.
O resultado evidencia um movimento incomum: enquanto muitos family offices priorizam a preservação de patrimônio, agora há disposição para ajustes mais substanciais. O levantamento, publicado em 28 de maio de 2026, serve como termômetro para entender como famílias de alta renda estão reagindo a riscos externos que escapam do ambiente puramente financeiro.
Por que a mudança está ocorrendo
Dois vetores explicam a intenção de revisão: a escalada de conflitos geopolíticos e o receio de uma crise fiscal global. O primeiro cria volatilidade imediata nos mercados de commodities, câmbio e taxas de juros; o segundo coloca em xeque a capacidade de governos de manterem déficits sem consequências para inflação e impostos. Diante disso, muitos family offices estão reavaliando posições em renda fixa, renda variável e ativos alternativos, buscando menor correlação com mercados tradicionais e maior proteção contra choques.
Como os ajustes podem ocorrer
Os ajustes previstos não são homogêneos: alguns escritórios tendem a aumentar a participação em ativos reais e proteção cambial, enquanto outros preferem reforçar liquidez para capturar oportunidades em momentos de baixa. Há também movimentos em direção a investimentos privados e estratégias alternativas que prometem diversificação e menor sensibilidade a políticas fiscais adversas.
Preferência por ativos reais e hedge
Muitos gestores demonstram inclinação por ativos reais como imóveis e infraestrutura, vistos como proteção contra inflação e desvalorização monetária. Ao mesmo tempo, o uso de hedges cambiais e instrumentos derivativos está sendo considerado para reduzir exposição a variações abruptas de moedas. Esses passos procuram equilibrar retorno e preservação, sobretudo quando a visibilidade macro diminui.
Maior alocação em investimentos privados
Outra tendência é a migração para private equity, venture capital e crédito privado. Essas classes podem oferecer menos correlação com índices públicos e prazos de investimento que combinam com horizontes familiares de longo prazo. No entanto, exigem avaliações detalhadas de liquidez e risco, uma vez que operações privadas geralmente são menos transparentes e mais ilíquidas.
Implicações para o mercado e para o futuro
Se a intenção de 60% dos family offices se concretizar, o mercado poderá observar mudanças significativas nas demandas por ativos e serviços. Fornecedores de produtos financeiros, gestores de patrimônio e consultores precisarão adaptar ofertas para atender a necessidade de proteção contra riscos fiscais e geopolíticos, além de estruturar soluções que conciliem liquidez com acesso a retornos alternativos.
Além disso, mudanças na alocação dessas fortunas podem amplificar movimentos de preço em mercados menos líquidos. Por exemplo, uma migração coordenada para infraestrutura ou crédito privado tende a elevar avaliações e reduzir prêmios de risco, ao passo que retirada de posições em mercados públicos pode aumentar volatilidade.
Desafios operacionais e de governança
Implementar alterações estruturais na carteira exige ajustes na governança dos family offices, incluindo revisão de políticas de investimento, processos de due diligence e gestão de risco. A necessidade de maior especialização pode levar a terceirização de certas funções ou à contratação de talentos com experiência em mercados alternativos. A transparência e a comunicação entre gerações também se tornam centrais quando se redesenha uma estratégia de longo prazo.
O papel do contexto brasileiro
No Brasil, family offices citados na pesquisa refletem a mesma preocupação global, mas com sensibilidades locais, como volatilidade cambial e fiscalidade. Decisões de alocação podem incluir maior proteção cambial e busca por ativos domésticos que ofereçam resiliência em cenários de estresse local. Consultores e gestores brasileiros terão papel chave ao adaptar soluções globais ao perfil regulatório e tributário do país.
Em resumo, a pesquisa do UBS com 307 family offices em cerca de 30 países, divulgada em 28 de maio de 2026, indica que a combinação de riscos geopolíticos e fiscais está motivando mudanças raras e significativas na forma como patrimônios familiares são alocados. O efeito prático deve ser uma busca por maior diversificação, proteção e flexibilidade operacional, além de uma demanda crescente por estruturas de investimento que conciliem liquidez, governança e retorno ajustado ao risco.