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24 setembro 2026

Como políticas públicas podem atrair capital em IA ao Brasil

Debate de líderes mostra que IA será prioridade nacional e que energia limpa, regulação e educação são chaves para captar recursos estrangeiros.

Como políticas públicas podem atrair capital em IA ao Brasil

Na segunda-feira, 21 de setembro, o Fórum Agenda Global 2026 reuniu autoridades, executivos e acadêmicos em Nova Iorque para discutir a posição do Brasil na corrida internacional de inteligência artificial. Apesar de Estados Unidos e China liderarem o cenário, os participantes enfatizaram que o país latino-americano precisa encarar a IA como prioridade estratégica para transformar sua base de recursos em atração de capital externo.

Política pública e responsabilidade fiscal como motor de investimento

Larissa Wachholz, sócia da Vallya e senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, afirmou que a união entre um plano de governo bem estruturado e disciplina fiscal cria o ambiente ideal para investidores estrangeiros. “Quando o Brasil reconhece que algo é essencial, concentra esforços; a IA já é consenso entre nós”, declarou. Ela ressaltou ainda a possibilidade de ampliar parcerias para além dos EUA e China, citando Japão, Coreia do Sul e outras economias asiáticas como potenciais aliados. Segundo Wachholz, a força do país reside na capacidade de diálogo e na estabilidade institucional, atributos que podem ser convertidos em investimento direto se acompanhados de incentivos claros.

Educação e talento como alavanca de competitividade

Para que a estratégia fiscal seja efetiva, Wachholz apontou a necessidade de formar profissionais qualificados em matemática, engenharia e ciências. Ela defende que políticas públicas voltadas ao ensino massivo, somadas ao estímulo familiar, são essenciais para gerar uma força-laboral capaz de operar e inovar com IA. O discurso enfatiza que um ecossistema de código aberto, menos concentrado nas mãos de poucos players, poderia acelerar a difusão da tecnologia entre as empresas brasileiras.

Infraestrutura energética e regulatória: diferencial brasileiro

Bruno Barino, presidente-executivo da BlackRock Brasil, destacou que a matriz energética do país oferece um diferencial competitivo raro em escala global. A abundância de energia limpa e de baixo custo reduz um dos maiores entraves para a implantação de data centers e de plataformas de machine learning. Barino enfatizou ainda que grande parte dos projetos de IA no Brasil está atrelada ao dólar, proporcionando uma proteção cambial natural para investidores internacionais. Contudo, ele alertou que o sucesso depende da criação de um arcabouço regulatório sólido, capaz de equilibrar segurança jurídica e flexibilidade para inovação.

Complementando a visão de Barino, Daniel Simkowitz, copresidente do Morgan Stanley, projetou que os fluxos financeiros ligados à cadeia completa da IA – da construção de centros de processamento até aplicações finais – podem movimentar entre US$ 5 e US$ 8 trilhões nos próximos quatro a cinco anos. Para ele, o Brasil apresenta três pilares favoráveis: energia estável, reservas de minerais críticos e um letramento tecnológico crescente, impulsionado por um ecossistema fintech vibrante. Essa combinação coloca o país em uma posição privilegiada frente ao Sudeste Asiático, que carece de energia adequada, e à Europa, que enfrenta desafios econômicos mais rígidos.

Aplicações práticas e o papel das indústrias brasileiras

Miguel Matos, presidente da Philip Morris Brasil, trouxe exemplos concretos de como a IA pode gerar valor imediato para setores tradicionais. Na empresa, a tecnologia está sendo testada na Europa para identificar compradores menores de idade em máquinas de venda automática, reduzindo o acesso de menores ao tabaco. No Brasil, a mesma lógica pode ser aplicada ao combate ao mercado ilícito de cigarros, que representa cerca de um terço do consumo nacional. A análise preditiva proposta pela companhia visa mapear as cadeias de distribuição suspeitas, oferecendo às autoridades informações em tempo real.

A secretária de Fazenda e Planejamento do Rio de Janeiro, Andrea Riechert Senko, acrescentou que a administração municipal já está explorando soluções de IA para melhorar a prestação de serviços aos cidadãos. Embora o setor público ainda se mantenha conservador em relação a investimentos de risco, a recente recuperação das finanças da cidade – marcada por maior capacidade de investimento e confiança do setor privado – cria um terreno fértil para experimentação tecnológica. Senko ressaltou que cidades que demonstram estabilidade fiscal e sinal de abertura tendem a atrair mais capital, reforçando a ideia de que a IA pode ser um catalisador de desenvolvimento urbano.