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6 junho 2026

Como Greg Abel conduz a Berkshire: paciência, caixa recorde e prudência

A transição para Greg Abel como CEO marca uma Berkshire mais defensiva, com reservas de caixa na casa dos US$ 380 bilhões e prioridade em dizer 'não' a investimentos inadequados

Como Greg Abel conduz a Berkshire: paciência, caixa recorde e prudência

A reunião anual da Berkshire Hathaway em Omaha, a primeira em que Greg Abel ocupou o centro do palco como diretor-executivo, trouxe um tom diferente ao evento que historicamente foi associado às falas longas de Warren Buffett.

Embora Buffett tenha estado presente na plateia e reafirmado seu apoio ao sucessor — repetindo que a escolha foi “100% acertada” —, a assembleia mostrou público reduzido em relação aos anos em que ele e Charlie Munger comandavam as atenções. A mudança simbólica marca a passagem do bastão após a aposentadoria de Buffett como CEO em 2026, com Munger falecido em 2026.

O estilo de gestão de Greg Abel

No discurso e nas respostas, Abel deixou claro que pretende manter a cultura do grupo, com ênfase em menos burocracia e maior autonomia das unidades. Reforçou que a prioridade é preservar a capacidade de ação da holding, evitando decisões apressadas apenas para demonstrar atividade. Essa postura traduz-se em uma atitude conservadora diante do mercado atual, em que preços elevados tornam difícil justificar alocações significativas.

Princípios de alocação e disciplina

Abel repetiu o mantra da paciência que definiu a administração anterior: buscar investimentos que possam ser mantidos “para sempre” e estar pronto a recusar oportunidades que não atendam aos critérios econômicos. No palco, o executivo e o veterano chefe de seguros Ajit Jain enfatizaram a necessidade de dizer não quando os riscos superam as vantagens, reconhecendo a tentação do gestor em agir apenas para evitar inércia.

O tamanho do caixa e as consequências práticas

Um dos pontos mais comentados foi a enorme reserva financeira da Berkshire: cifras mencionadas indicam reservas na casa dos US$ 380 bilhões, com balanço que pode alcançar cerca de US$ 397 bilhões se considerados pagamentos pendentes de US$ 17,2 bilhões — números levantados pela direção durante a apresentação. Esse montante confere à companhia flexibilidade para realizar aquisições de grande porte, mas também cria o dilema de quando e como empregar tanto capital de forma rentável.

Resultados e ações

No primeiro trimestre, o lucro operacional foi reportado em US$ 11,35 bilhões, alta de 18% em relação ao ano anterior. Ainda assim, a administração optou por recompras moderadas — cerca de US$ 234 milhões no trimestre — decisão que reflete a disciplina em realocar caixa somente quando a administração identificar valor claro. A estratégia prudente também ajudou a explicar a defasagem das ações da Berkshire frente ao S&P 500 desde o anúncio da sucessão.

Desafios legais, setoriais e a reação do mercado

Além do debate sobre alocação, a companhia lida com riscos legais e setoriais que impactam resultados e percepção do mercado. A decisão favorável em apelação para a unidade PacifiCorp no Oregon reduziu, temporariamente, exposições a potenciais indenizações por incêndios florestais de 2026. No plano operacional, questões como cobrança de reembolsos e ajustes tarifários continuam a desafiar subsidiárias, enquanto a BNSF e outras unidades lidam com incertezas dos clientes após mudanças de tarifa.

Setores voltados ao consumidor, como a construtora Clayton Homes, também sentiram o efeito de taxas de juros mais altas sobre a demanda, um fator que Abel reconheceu ao falar sobre o ambiente econômico que afeta compradores potenciais.

O legado e o caminho à frente

Warren Buffett, presente no evento, elogiou Abel e reiterou confiança na nova gestão, enquanto advertia para o crescimento de uma mentalidade especulativa entre investidores. Para Abel, o desafio é transformar a disponibilidade recorde de caixa em oportunidades reais de longo prazo, preservando a essência do modelo de negócios que fez da Berkshire um caso estudado no mundo financeiro.

O panorama desenhado no encontro sugere uma Berkshire menos festejada nas arquibancadas e mais focada em decisões calculadas: paciência, disciplina e prudência são as palavras de ordem enquanto o conglomerado busca traduzir seu enorme poder de fogo em valor sustentável para os acionistas.

Autor

Susanna Riva

Susanna Riva observa Bolonha da janela do Arquivo do Estado, onde passou uma semana consultando pastas sobre as cooperativas da cidade: esse documento determinou a escolha editorial de aprofundar as responsabilidades institucionais. Mantém uma linha crítica na redação, apreciadora de um café longo e de um caderno sempre cheio.