Nos últimos anos as chamadas stablecoins deixaram de ser uma solução marginal e passaram a integrar fluxos financeiros complexos. Robert Hackett, executivo da a16z, afirma que o rótulo “stablecoin” está ultrapassado porque ainda remete ao problema inicial — a volatilidade das criptomoedas — e não ao papel atual dessas moedas. Para Hackett, usar o mesmo nome é como continuar falando em cavalo-vapor para medir potência automotiva: a expressão já não descreve o que a tecnologia se tornou.
O mercado hoje tem tamanho relevante: levantamento do CoinMarketCap aponta cerca de US$ 322 bilhões em valor agregado para esse segmento, com protagonistas como USDT e USDC. Até empresas tradicionais — por exemplo, PayPal e Western Union — já testaram ou lançaram moedas atreladas ao dólar. Projeções do Citi sugerem que o setor pode atingir US$ 4 trilhões ainda em 2030, um crescimento exponencial sobre o panorama atual.
Index du contenu:
Por que a nomenclatura incomoda
A principal crítica levantada pela a16z é conceitual: hoje a estabilidade não é o objetivo final, mas sim um requisito mínimo. Em outras palavras, a questão deixou de ser “essa moeda manterá valor?” para passar a ser “o que podemos criar em cima dela?”. Essa mudança de foco torna o termo stablecoin restritivo, porque ressalta apenas a característica que foi resolvida no início da jornada, em vez de destacar funções como liquidação instantânea, integração em contratos programáveis e movimentação global de fundos sem intermediários.
Casos de uso e a transformação em infraestrutura
Na prática, muitas dessas moedas já desempenham papéis que pertenciam ao sistema financeiro tradicional. Com base em blockchains programáveis, elas permitem transferências transfronteiriças quase em tempo real, liquidação de operações em segundos e custódia por qualquer pessoa conectada à internet. Essa combinação de velocidade, acessibilidade e programação faz com que as moedas sirvam como base para aplicações financeiras inovadoras — algo que o dinheiro fiat jamais entregou de forma nativa.
Rebranding e alternativas de nome
Diante desse cenário, há um movimento para novos termos: alguns preferem dinheiro digital ou dinheiro programável, outros sugerem nomes específicos de moeda, como dólares digitais ou euros digitais, e ainda há quem use expressões genéricas como ativos on-chain. Nos resultados de busca no Brasil, o Google Trends mostra maior interesse por USDT do que por stablecoin, e este, por sua vez, tem mais buscas que expressões como “dólar digital”. A mesma dinâmica aparece em escala global, sinalizando que marcas pioneiras ou símbolos específicos tendem a dominar o vocabulário popular.
O que isso significa para o futuro do dinheiro
Uma das imagens frequentemente citadas por defensores dessa visão é a da eletricidade: quando uma tecnologia se torna ubíqua, deixamos de falar sobre ela de forma especial — simplesmente a usamos. No mesmo sentido, se as moedas atreladas a ativos — e suas variantes programáveis — alcançarem trilhões em volume e sustentarem fluxos globais de pagamento, o termo deixará de ter relevância. O que passará a importar, segundo a a16z, é que o dinheiro finalmente se comporte como a internet: rápido, integrável e onipresente.
Esse deslocamento semântico também tem implicações práticas: regulações, nomenclatura em contratos e a forma como empresas comunicam produtos podem evoluir para termos que reflitam utilidade e jurisdição (por exemplo, “dólar digital”) em vez de um rótulo técnico originado em um problema já resolvido. A discussão segue ganhando força conforme players institucionais e de varejo ampliam adoção e experimentos.
Quem observa de perto
Para quem acompanha o tema, é útil saber quem tem experiência prática. Henrique HK, desenvolvedor web com mais de duas décadas de trabalho e interessado em cripto desde 2016, traduziu e documentou materiais do ecossistema e já operou uma pequena fazenda de mineração. Seus relatos e curadoria ajudam a traduzir termos técnicos em aplicações concretas e a mapear como conceitos como stablecoin e dinheiro programável vêm sendo adotados no dia a dia.
