O comportamento do dólar e a evolução da dívida pública federal não podem ser lidos apenas em gráficos isolados. Em janeiro de 2026, o estoque da Dívida Pública Federal (DPF) fechou em R$ 8,641 trilhões, resultado de juros apropriados e resgates líquidos que alteraram a composição e o custo da dívida. Ao mesmo tempo, movimentos internacionais e decisões de bancos centrais tiveram papel relevante na redistribuição de carteiras e na formação de preços no mercado doméstico.
Este texto reúne os principais pontos do relatório mensal da dívida e complementa com sinais internacionais — incluindo vendas de reservas pelo Banco Central Europeu (BCE) — para explicar por que a cotação do dólar e a percepção sobre o risco soberano se movimentaram em conjunto.
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Panorama da dívida pública em janeiro de 2026
Segundo o Relatório Mensal da Dívida (RMD) divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional, o estoque da Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) subiu para R$ 8,330 trilhões, concentrando apropriação positiva de juros e um resgate líquido relevante. Em contraste, a Dívida Pública Federal externa (DPFe) recuou para R$ 310,59 bilhões (US$ 59,39 bilhões), refletindo amortizações e variações cambiais.
Emissões, resgates e perfil dos detentores
Em janeiro, as emissões somaram R$ 147,17 bilhões e os resgates alcançaram R$ 215,93 bilhões, gerando um resgate líquido de R$ 68,76 bilhões. Os títulos prefixados, os indexados à taxa flutuante e os atrelados à inflação compuseram o leque de emissões. Entre os detentores, as instituições financeiras continuaram dominando, com quase 32% da DPMFi, seguidas por previdência, fundos de investimento e não-residentes.
Custo, prazo e liquidez: indicadores que importam
O custo médio do estoque da DPF acumulado em 12 meses subiu de 11,85% para 12,07% ao ano em janeiro, enquanto o prazo médio aumentou ligeiramente, de 4,00 para 4,03 anos. Esses movimentos refletem tanto ajustes de mercado quanto decisões internas de financiamento. A reserva de liquidez foi reduzida nominalmente para R$ 1,085 trilhão, mas ainda equivalia a 6,77 meses de pagamentos futuros — um patamar considerado confortável frente ao nível prudencial de três meses.
Efeito sobre o Tesouro Direto
O programa tesouro direto teve vendas recordes em janeiro, com R$ 12,02 bilhões, e resgates de R$ 7,14 bilhões, resultando em emissão líquida de R$ 4,88 bilhões. O estoque do Tesouro Direto subiu para R$ 220,24 bilhões, com destaque para títulos indexados à inflação e o Tesouro Selic, que foi o mais demandado. O número de investidores ativos alcançou 3,45 milhões, mostrando crescimento na base de pequenos investidores.
Fatores externos e realocação de carteiras
O relatório destaca que riscos geopolíticos e a rotação de carteiras a partir dos Estados Unidos favoreceram entradas em mercados emergentes. Movimentos desse tipo impactaram o CDS Brasil, que recuou para 130 pontos-base em janeiro, e contribuíram para aumento da participação de não-residentes na dívida brasileira. Internamente, expectativas de flexibilização da política monetária pelo Copom em março deram um ânimo adicional ao mercado.
O papel dos bancos centrais
Decisões e ajustes nas reservas internacionais também afetam a liquidez global e as taxas de câmbio. Por exemplo, o BCE informou ter vendido parte de ativos em dólares no primeiro trimestre de 2026 e reinvestido os rendimentos em ienes, reduzindo o peso do dólar em sua carteira. Tal realocação ilustra como a composição das reservas e a aversão ao risco alteram fluxos entre moedas, pressionando a volatilidade do câmbio.
Implicações para quem negocia dólar e para a gestão da dívida
Para operadores de curto prazo, como day traders, é fundamental entender que o preço do dólar futuro reflete uma combinação de fatores: decisões de grandes bancos centrais, divulgação de dados econômicos nos EUA, riscos geopolíticos e o fluxo efetivo de capitais entre fronteiras. Em termos de gestão da dívida, as autoridades buscaram alongar prazos e ampliar a base de investidores com emissões internacionais bem-sucedidas, incluindo operações de grande porte que demonstraram apetite por títulos brasileiros.
Conclusão
A leitura conjunta desses sinais é essencial para investidores, gestores públicos e operadores de mercado.
