A trajetória da Apex Partners começou de forma modesta e pessoal: um grupo de alunos da Fucape criou, em 2013, uma operação que funcionava quase como uma família no Espírito Santo. O crescimento seguiu uma lógica relacional, resumida no princípio de “amizade antes do negócio”: clientes locais preferem parceiros conhecidos e que compreendam as dinâmicas regionais. Hoje a casa afirma ter cerca de R$ 19 bilhões sob gestão e advisory, resultado de uma mudança de foco que transformou erros iniciais em aprendizado estratégico.
Na fase inicial, a Apex tentou consolidar franquias e negócios de consumo com apostas em redes e serviços de saúde, mas esbarrou em choques do ambiente macroeconômico. Segundo o fundador Fernando Cinelli, a execução operacional foi adequada, mas houve subestimação do risco sistêmico que afetou a tese original. Essa experiência motivou um reposicionamento: invés de disputar com players grandes no eixo Rio–SP, a Apex decidiu atender a demanda de capital e estrutura que faltava nas economias regionais.
Da falha à nova tese: foco nas economias locais
O movimento estratégico da Apex se apoiou em uma constatação prática: famílias e empresários de estados fora do centro financeiro nacional tinham recursos e vontade de impulsionar o próprio território, mas careciam de acesso ao mercado de capitais. A empresa então passou a estruturar veículos privados e soluções de equity para incorporadoras e empresas locais, com investidores muitas vezes sendo os próprios empresários regionais. Esse modelo explora uma lógica diferente da Faria Lima: investidores que buscam impacto local e que fecham negócios com quem confiam.
Definição e geografia das “onças brasileiras”
A Apex cunhou o termo onças brasileiras para designar um conjunto de estados com potencial de crescimento acima da média, finanças públicas mais equilibradas e economias reais pouco exploradas pelo mercado tradicional. A lista inclui Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em estudo próprio, a participação dessas unidades federativas no PIB brasileiro subiu de 34% em 2002 para 39% em 2026, evidenciando a crescente relevância econômica das regiões.
Uma oferta de serviços integrada
Para atender clientes com grande parte do patrimônio vinculada ao negócio familiar, a Apex montou um mix de serviços que combina gestora, advisory, investment banking, research e, mais recentemente, um multi-family office. No ano passado a companhia adquiriu a Redoma, operação que amplia entregas em assessoria jurídica e contábil e oferece até planejamento de vida, desde casamentos até apoio na aquisição de bens de luxo — um reflexo de um atendimento que vai além do investimento e que busca preservar e diversificar fortunas familiares.
Clientes e portfólio
Entre os clientes atendidos estão empresas com raízes regionais consolidadas, como a capixaba Fortlev, a cooperativa Cooabriel e a varejista paranaense Gazin. No campo de participações em private equity, a Apex investe em companhias nas chamadas onças, como Wine, Univale, ATW Brands, Yooga, Mottu e Timenow Engenharia, reforçando a tese de que há oportunidades relevantes fora dos grandes centros.
Escala, parcerias e próximos passos
Além de ampliar o portfólio, a Apex obteve visibilidade ao se tornar um dos principais acionistas da CVC, ao adquirir uma participação de 14%. A leitura da empresa é que a CVC passou por desalavancagem e recuperação, com sinais de crescimento de receita e melhoria de margem, o que tornou o preço atrativo para entrada. Em busca de maior infraestrutura financeira, a empresa planeja adquirir uma DTVM ainda este ano e tem a ambição de se transformar em uma instituição financeira completa até 2030.
Replicabilidade e relação com a Faria Lima
O objetivo estratégico é escalar um modelo replicável: ocupar polos brasileiros com pelo menos US$ 30 bilhões de densidade de PIB, levando soluções de capital e serviços a regiões subatendidas. Para isso a Apex tem se aproximado do mercado de capitais tradicional, vendo a Faria Lima não como concorrente, mas como parceira de distribuição de capital. Em iniciativas de conectividade, a empresa promove eventos nacionais e internacionais — inclusive em Nova York, onde reuniu 450 convidados, entre eles 120 empresários regionais — para integrar comunidades locais a investidores e operadores financeiros mais acostumados ao centro financeiro.
Conclusão
A história da Apex ilustra como um reposicionamento tático e relacional pode transformar uma gestora nascente em uma plataforma com presença e ambição nacional. Ao combinar confiança local, estruturas financeiras e serviços personalizados, a empresa busca preencher lacunas de mercado e moldar um modelo que torne as economias regionais parte central da alocação de capital no Brasil.
