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14 maio 2026

Apex Partners aposta nas onças brasileiras fora da Faria Lima

Como a Apex Partners transformou um pequeno private equity em uma plataforma com R$ 19 bilhões ao priorizar investidores regionais e relações de confiança

Apex Partners aposta nas onças brasileiras fora da Faria Lima

A trajetória da Apex Partners começou de forma modesta e pessoal: um grupo de alunos da Fucape criou, em 2013, uma operação que funcionava quase como uma família no Espírito Santo. O crescimento seguiu uma lógica relacional, resumida no princípio de “amizade antes do negócio”: clientes locais preferem parceiros conhecidos e que compreendam as dinâmicas regionais. Hoje a casa afirma ter cerca de R$ 19 bilhões sob gestão e advisory, resultado de uma mudança de foco que transformou erros iniciais em aprendizado estratégico.

Na fase inicial, a Apex tentou consolidar franquias e negócios de consumo com apostas em redes e serviços de saúde, mas esbarrou em choques do ambiente macroeconômico. Segundo o fundador Fernando Cinelli, a execução operacional foi adequada, mas houve subestimação do risco sistêmico que afetou a tese original. Essa experiência motivou um reposicionamento: invés de disputar com players grandes no eixo Rio–SP, a Apex decidiu atender a demanda de capital e estrutura que faltava nas economias regionais.

Da falha à nova tese: foco nas economias locais

O movimento estratégico da Apex se apoiou em uma constatação prática: famílias e empresários de estados fora do centro financeiro nacional tinham recursos e vontade de impulsionar o próprio território, mas careciam de acesso ao mercado de capitais. A empresa então passou a estruturar veículos privados e soluções de equity para incorporadoras e empresas locais, com investidores muitas vezes sendo os próprios empresários regionais. Esse modelo explora uma lógica diferente da Faria Lima: investidores que buscam impacto local e que fecham negócios com quem confiam.

Definição e geografia das “onças brasileiras”

A Apex cunhou o termo onças brasileiras para designar um conjunto de estados com potencial de crescimento acima da média, finanças públicas mais equilibradas e economias reais pouco exploradas pelo mercado tradicional. A lista inclui Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em estudo próprio, a participação dessas unidades federativas no PIB brasileiro subiu de 34% em 2002 para 39% em 2026, evidenciando a crescente relevância econômica das regiões.

Uma oferta de serviços integrada

Para atender clientes com grande parte do patrimônio vinculada ao negócio familiar, a Apex montou um mix de serviços que combina gestora, advisory, investment banking, research e, mais recentemente, um multi-family office. No ano passado a companhia adquiriu a Redoma, operação que amplia entregas em assessoria jurídica e contábil e oferece até planejamento de vida, desde casamentos até apoio na aquisição de bens de luxo — um reflexo de um atendimento que vai além do investimento e que busca preservar e diversificar fortunas familiares.

Clientes e portfólio

Entre os clientes atendidos estão empresas com raízes regionais consolidadas, como a capixaba Fortlev, a cooperativa Cooabriel e a varejista paranaense Gazin. No campo de participações em private equity, a Apex investe em companhias nas chamadas onças, como Wine, Univale, ATW Brands, Yooga, Mottu e Timenow Engenharia, reforçando a tese de que há oportunidades relevantes fora dos grandes centros.

Escala, parcerias e próximos passos

Além de ampliar o portfólio, a Apex obteve visibilidade ao se tornar um dos principais acionistas da CVC, ao adquirir uma participação de 14%. A leitura da empresa é que a CVC passou por desalavancagem e recuperação, com sinais de crescimento de receita e melhoria de margem, o que tornou o preço atrativo para entrada. Em busca de maior infraestrutura financeira, a empresa planeja adquirir uma DTVM ainda este ano e tem a ambição de se transformar em uma instituição financeira completa até 2030.

Replicabilidade e relação com a Faria Lima

O objetivo estratégico é escalar um modelo replicável: ocupar polos brasileiros com pelo menos US$ 30 bilhões de densidade de PIB, levando soluções de capital e serviços a regiões subatendidas. Para isso a Apex tem se aproximado do mercado de capitais tradicional, vendo a Faria Lima não como concorrente, mas como parceira de distribuição de capital. Em iniciativas de conectividade, a empresa promove eventos nacionais e internacionais — inclusive em Nova York, onde reuniu 450 convidados, entre eles 120 empresários regionais — para integrar comunidades locais a investidores e operadores financeiros mais acostumados ao centro financeiro.

Conclusão

A história da Apex ilustra como um reposicionamento tático e relacional pode transformar uma gestora nascente em uma plataforma com presença e ambição nacional. Ao combinar confiança local, estruturas financeiras e serviços personalizados, a empresa busca preencher lacunas de mercado e moldar um modelo que torne as economias regionais parte central da alocação de capital no Brasil.

Autor

Susanna Riva

Susanna Riva observa Bolonha da janela do Arquivo do Estado, onde passou uma semana consultando pastas sobre as cooperativas da cidade: esse documento determinou a escolha editorial de aprofundar as responsabilidades institucionais. Mantém uma linha crítica na redação, apreciadora de um café longo e de um caderno sempre cheio.