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27 maio 2026

Ações coletivas: riscos de IA e cripto para empresas e executivos

Como IA, criptomoedas e crédito privado estão alterando o mapa de litígios e afetando seguradoras e executivos

O relatório D&O Outlook 2026, da Howden, ressalta que a combinação de inteligência artificial e criptomoedas vem alimentando uma nova etapa de litígios coletivos nos mercados internacionais. Em termos práticos, investidores e acionistas passaram a abrir mais disputas contra empresas e seus líderes por alegadas falhas na governança, divulgação de informações e gestão de riscos tecnológicos. Essa tendência contrasta com a desaceleração observada até 2026 e volta a colocar no centro do debate o papel das diretorias e a exposição de executivos a pedidos de indenização e processos públicos.

O estudo identifica que, somente em 2026, foram contabilizados 17 processos relacionados à IA e 14 ligados a criptoativos, dados que ilustram a intensidade do fenômeno. Além disso, há uma preocupação crescente com o que o relatório chama de AI washing — práticas em que empresas exageram ou distorcem o uso de AI em comunicações ao mercado — elevando questionamentos sobre a veracidade de projeções e a qualidade das divulgações. Para gestores, seguradoras e investidores, isso significa enfrentar reclamações que combinam tecnologia, compliance e cálculo de responsabilidades.

Por que IA e cripto aumentam a litigiosidade

As tecnologias emergentes criam expectativas aceleradas de crescimento e, simultaneamente, áreas cinzentas sobre responsabilidade. Quando uma companhia anuncia avanços baseados em inteligência artificial ou em produtos ligados a criptomoedas, investidores podem contestar desde a precisão das estimativas até a governança dos processos internos. O relatório aponta que disputas sobre divulgação de informações e falhas de governança passaram a impulsionar as chamadas açōes coletivas, muitas vezes acompanhadas de ações paralelas de derivadas (ações derivadas), o que amplia a pressão sobre conselhos e executivos e tende a aumentar a complexidade dos sinistros.

Dados e setores mais expostos

Nos Estados Unidos, a retomada das açōes coletivas já é mensurável: empresas de biotecnologia responderam por 31% dos processos registrados em 2026, enquanto o setor de tecnologia concentrou 26%. Entre 2019 e 2026, 47% dos acordos de class action envolveram ações derivadas paralelas, e apenas no primeiro semestre de 2026 os acordos somaram US$ 1,1 bilhão. Apesar da queda recente dos chamados mega-acordos, o valor médio das indenizações permanece elevado — o relatório indica que está 63% acima da média da última década —, sinalizando que o custo das disputas ainda é relevante para seguradoras e empresas.

Crédito privado e insolvências no radar

Outro ponto de atenção destacado pelo documento é o crescimento do crédito privado, que trouxe questões sobre transparência, qualidade de garantias e possíveis conflitos de interesse em operações estruturadas. Casos recentes nos Estados Unidos, envolvendo suspeitas de fraude e duplicação de garantias, elevaram o nível de alerta. Em paralelo, o número global de insolvências subiu de 31 mil em 2026 para 56,7 mil em 2026, com projeção entre 68 mil e 70 mil para 2026, o que aumenta o risco de perdas e contenciosos em cadeias mais expostas.

O cenário brasileiro e implicações para D&O

No Brasil, a sinistralidade do mercado de responsabilidade de diretores e administradores mantém-se baixa, caindo de 150% em 2019 para menos de 12% em 2026. Dados da SUSEP citados pela Howden mostram que o mercado de D&O movimentou R$ 1,153 bilhão em prêmios em 2026, com R$ 132 milhões em sinistros pagos; em 2026 a sinistralidade ficou próxima de 14%. O relatório chama atenção ainda para a Lei 15.040/2026, que, estando em vigor desde dezembro de 2026, deve trazer maior clareza contratual e regras mais rígidas sobre respostas de seguradoras e resseguradoras, potencialmente influenciando disputas sobre cobertura.

O que executivos e seguradoras precisam avaliar

Para diretores e conselhos, a recomendação implícita é fortalecer práticas de governança, transparência nas comunicações e due diligence em projetos de IA e cripto. Segundo Yves Lima, Diretor de Linhas Financeiras da Howden Re Brasil, embora o mercado ainda favoreça compradores de seguro devido à baixa sinistralidade e preços em queda, novos focos de disputa relacionados à tecnologia e ao ambiente econômico podem alterar a percepção de risco nos próximos anos. Por isso, é crucial que empresas, corretores e seguradoras reavaliem políticas de gestão de risco, programas de compliance e contratos de D&O à luz desses sinais.

Autor

Francesca Galli

Francesca Galli, florentina com formação bancária, tomou a decisão de mudar de carreira após um congresso no Palazzo Vecchio: hoje elabora análises de mercados e colunas sobre poupança e investimentos. Na redação propõe linhas editoriais atentas à transparência e conserva a agenda do primeiro emprego no banco.