Pular para o conteúdo
3 outubro 2026

Como o mercado de capitais fortalece setores estratégicos e impulsiona fintechs

O mercado de capitais se consolida como ponte de recursos para empresas, fortalece o agronegócio, revela desafios nas ferrovias e abre caminho para o Banking as a Service.

Como o mercado de capitais fortalece setores estratégicos e impulsiona fintechs

O mercado de capitais tem se afirmado como o principal canal de captação de recursos no Brasil, complementando o tradicional financiamento bancário. Em vez de recorrer a empréstimos onerosos, empresas de diferentes portes podem emitir ações ou títulos de dívida — como debêntures — para captar recursos diretamente de investidores institucionais e de varejo. Essa dinâmica cria uma conexão direta entre quem dispõe de capital e quem precisa financiar projetos produtivos, reduzindo a dependência de linhas de crédito convencionais.

Até dezembro de 2025, o volume de recursos mobilizados pelo mercado de capitais chegou a cerca de R$ 8 trilhões, representando 68,5% do PIB nacional. As companhias não-financeiras já superam marginalmente os bancos nas captações, com 33,6% contra 33,3% de empréstimos bancários. Esse cenário indica que a bolsa está cada vez mais presente no financiamento da economia real, possibilitando investimentos em setores que vão da produção de alimentos à construção de grandes obras de infraestrutura.

Financiamento estratégico: agronegócio e ferrovias

O agronegócio exemplifica o benefício da diversificação de fontes de recursos. Tradicionalmente sustentado por crédito público, o segmento passou a contar com instrumentos como CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e Fiagro, ampliando as opções de financiamento para produtores e empresas da cadeia agroindustrial. Em 2025, o estoque de títulos com lastro agropecuário chegou a R$ 1,37 trilhão, sendo 43,7% de natureza bancária e o restante de emissão direta no mercado de capitais, o que reduz a vulnerabilidade ao corte de recursos do Plano Safra.

Já no setor de ferrovias a Lei nº 14.801/2024 pretendia democratizar o acesso ao crédito, mas a prática revelou um efeito contrário. A análise de 12 concessões federais (2007-2024) mostrou que a emissão de debêntures incentivadas favoreceu grandes holdings — Rumo, Vale, VLI e MRS Logística — que já detêm cerca de 95% das linhas de ferro de carga. Essas empresas conseguem oferecer garantias corporativas robustas, permitindo a captação de recursos a custos menores, enquanto projetos independentes (greenfield) encontram barreiras de escala e governança que os excluem do mercado de dívida.

Inovação financeira: o papel do BaaS

Paralelamente, o Banking as a Service (BaaS) está se consolidando como ferramenta estratégica para varejistas, indústrias, marketplaces e atacadistas que desejam integrar serviços financeiros ao seu modelo de negócio. A BMP, com mais de 27 anos de experiência, já operou cerca de R$ 30 bilhões em crédito em 2025, atendendo a mais de 850 clientes ativos. O BaaS permite que essas empresas ofereçam crédito ao consumo, antecipação de recebíveis ou financiamento a distribuidores, usando APIs rápidas e integração tecnológica.

Entretanto, o sucesso de uma solução BaaS vai além da velocidade de implantação. É preciso mensurar como a oferta financeira se traduz em receita sustentável, avaliar custos operacionais, implementar políticas de prevenção a fraudes e garantir um governança robusta. Como aponta o CFO da BMP, Luiz Conrado, “não basta colocar a solução no ar; é essencial acompanhar a formação do resultado e validar a prosperidade ao longo do tempo”.

Conexões entre capital, infraestrutura e fintechs

A convergência entre os três tópicos – capital de mercado, grandes projetos de infraestrutura e soluções de BaaS – revela um ecossistema interdependente. Enquanto o mercado de capitais fornece o capital de longo prazo necessário para modernizar ferrovias e expandir o agronegócio, as fintechs apoiadas por BaaS criam fluxos de caixa adicionais ao possibilitar crédito mais ágil a pequenos produtores e varejistas. Essa sinergia reduz o chamado Custo Brasil ao ampliar a base de investidores, melhorar a previsibilidade regulatória e estimular investimentos de longo prazo.

Em síntese, fortalecer o mercado de capitais significa criar um ambiente jurídico estável, ampliar a participação de investidores e facilitar o acesso a recursos para setores estratégicos. Ao mesmo tempo, tornar o BaaS parte da estratégia financeira das empresas amplia a oferta de crédito e impulsiona a competitividade. As políticas públicas que reduzam entraves burocráticos, garantam governança transparente e incentivem a emissão de títulos de longo prazo são essenciais para que o Brasil continue avançando rumo a um crescimento mais sustentável e inclusivo.

Autor

Bruno Costa