O Brasil figura como o quinto maior receptor de investimento estrangeiro direto acumulando cerca de US$ 77 bilhões, atrás apenas de Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e China. Atrás desse número, porém, há um panorama desigual: a maior parte dos recursos vem de setores tradicionais – energia, agronegócio, infraestrutura – e não dos ramos que definem a nova era digital, como semicondutores, inteligência artificial, data centers, telecomunicações 5G/6G e energia nuclear. Essa desconexão se deve, sobretudo, a um ambiente de negócios dominado por insegurança jurídica, alta carga tributária e juros elevados fatores que desestimulam projetos de longo prazo com horizonte de duas ou três décadas.
Investimentos estratégicos em risco
Embora o tamanho do mercado interno e a matriz energética limpa sejam atrativos, a falta de confiança institucional tem sido um obstáculo decisivo. A crise de credibilidade que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF) e outras instâncias judiciais surgiu após a divulgação de ligações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e magistrados, além de trocas verbais acirradas entre ministros. Essa atmosfera de suspeita reduz a disposição de investidores estrangeiros que buscam estabilidade regulatória para apostar em tecnologias de ponta.
Além disso, o contexto geopolítico se tornou menos favorável. A postura externa de Luiz Inácio Lula da Silva tem aproximado o país de potências como China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, gerando um afastamento implícito dos Estados Unidos e da OTAN. Por outro lado, Flávio Bolsonaro projeta alinhamento ao modelo de Donald Trump e ao ultranacionalismo israelense. Ambas as vertentes criam incerteza quanto à orientação internacional do Brasil, um ponto que tradicionalmente funcionou como “bônus geopolítico” para atrair capital.
Crise institucional e propostas de reforma
Com a institucionalização da crise no STF, a disputa presidencial passou a incluir a reforma do Poder Judiciário como bandeira central. Candidatos de diferentes espectros – Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e Flávio Bolsonaro (PL) – defendem a implementação de mandatos limitados para os ministros. As propostas variam entre oito, dez e quinze anos, buscando impedir que figuras permaneçam na corte por mais de quatro décadas.
Lula, antes reticente, recentemente reforçou a ideia de que “ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo”, alinhando-se a uma iniciativa parlamentar que sugere um teto de dez anos. O vice-presidente Geraldo Alckmin também manifestou apoio à medida, enquanto o presidente do STF, Alexandre de Moraes, tem sido alvo de críticas por suposta corrupção e uso de verbas indenizatórias excedentes. Paralelamente, todos os candidatos concordam em restringir a atuação de parentes de magistrados nos mesmos tribunais, ampliando a proibição ao terceiro grau de consanguinidade.
Termos e limites comparados ao exterior
Modelos europeus – Alemanha, França e Itália – já adotam mandatos de nove a doze anos para seus juízes superiores. Nos países nórdicos, o critério é etário, similar ao brasileiro, enquanto nos EUA o cargo é vitalício. O debate brasileiro, portanto, não se limita a copiar um modelo, mas a encontrar o equilíbrio entre independência judicial e prevenção de influência política excessiva.
Orçamento recorde do Judiciário
Em 2025, os gastos do Poder Judiciário brasileiro atingiram R$ 164,6 bilhões – o maior patamar desde o início da série histórica do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2009. Desse total, 90,2 % (R$ 148,5 bilhões) destinou-se à folha de pagamento, incluindo salários, benefícios e indenizações de magistrados, servidores e terceirizados. As despesas indenizatórias somaram R$ 9,8 bilhões, ultrapassando em quase duas vezes o investimento de R$ 4,4 bilhões em tecnologia da informação, que representa apenas 2,6 % do orçamento.
A arrecadação judicial recuou para R$ 68,2 bilhões, equivalendo a 41 % dos gastos e 8,9 % abaixo do ano anterior. As principais fontes foram custas, taxas e emolumentos (R$ 30 bilhões) e execuções fiscais (R$ 16,2 bilhões). Enquanto isso, o debate sobre os supersalários dos magistrados ganhou força, já que, apenas na Justiça do Trabalho, foram pagos cerca de R$ 1 bilhão em valores que ultrapassam o teto constitucional.
Especialistas apontam que o aumento de gastos com pessoal não tem se traduzido em ganhos de eficiência. O professor Bruno Carazza, da Fundação Dom Cabral, observa que a digitalização dos processos ainda não reduziu significativamente a duração dos casos nem os custos operacionais, sugerindo que os recursos poupados estão sendo redirecionados para benefícios individuais em vez de inovações estruturais. Essa realidade cria um círculo vicioso: falta de investimentos em tecnologia diminui a produtividade, elevando a necessidade de mão de obra e, por consequência, o gasto com pessoal.
Em síntese, a conjunção de crise de confiança no Judiciário disputas eleitorais polarizadas e um orçamento que prioriza despesas de pessoal sobre inovação coloca o Brasil em posição vulnerável diante da corrida global por tecnologias avançadas. A aprovação de reformas – seja a limitação de mandatos, a restrição de parentesco ou o aumento de investimentos em infraestrutura digital – será decisiva para reverter o quadro e reconquistar o interesse de investidores que hoje consideram o país como um risco excessivo.



