O Brasil está navegando em águas turbulentas em 2026, com desafios tanto no cenário diplomático quanto no econômico. As tensões entre Brasília e Washington, somadas à saída de investidores estrangeiros, estão colocando o país em uma posição delicada. Este artigo explora os fatores por trás dessas questões e suas implicações para o futuro do Brasil.
Anthony Pereira, cientista político britânico e uma das maiores autoridades sobre o Brasil no exterior, alerta que as eleições de 2026 podem trazer riscos inesperados. Pereira, que dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King’s College, em Londres, tem acompanhado de perto a evolução política do país desde 1989.
Tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos
A relação entre o Brasil e os Estados Unidos tem sido marcada por uma série de atritos recentes. A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington pelo governo de Donald Trump é apenas mais um capítulo dessa escalada. Para Pereira, essa decisão reflete uma abordagem ideológica e partidária, em detrimento de uma visão estratégica e geopolítica.
“Se tivessem olhado para o Brasil de forma mais estratégica e geopolítica, estariam interessados em minerais críticos, inclusive em terras raras. Estariam interessados em cooperar com o Brasil no combate ao crime organizado. Poderiam ter interesse mútuo na produção de etanol. Poderiam ter interesse mútuo na proteção da Floresta Amazônica,” afirma Pereira.
Além disso, a indicação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos no Brasil sem a consulta prévia ao Brasil, como exige o protocolo diplomático, tem sido vista como uma falta de respeito às normas internacionais. Essas ações têm gerado uma sensação de desconfiança e insegurança nas relações entre os dois países.
Impacto da política externa de Trump na América Latina
A política externa de Trump para a América Latina tem sido marcada por uma abordagem negativa e confrontacional. Em vez de propor soluções positivas, como financiamento para infraestrutura e cooperação econômica, o governo Trump tem focado em criticar a presença chinesa na região e impor medidas restritivas.
“É uma política que não víamos desde a época da diplomacia das canhoneiras, no fim do século 19 e começo do século 20, quando os Estados Unidos intervinham militarmente na América Latina para proteger seus interesses,” observa Pereira. Essa abordagem tem gerado reações negativas não apenas no Brasil, mas também em outros países da região, como o Canadá.
Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, tem defendido uma abordagem multilateral para conter os danos causados por essas políticas. A sensação de que os Estados Unidos não são um parceiro confiável tem levado outros países a buscar apoio em outras regiões, como a Europa e a Ásia.
Saída de investidores estrangeiros e volatilidade no mercado financeiro
O mercado financeiro brasileiro tem enfrentado uma onda de cautela, com a saída expressiva de recursos de investidores estrangeiros. Dados da B3 mostram que, nos dias 6 e 7 de agosto, a saída de capital estrangeiro superou R$ 5 bilhões. Essa tendência tem pressionado as ações e reforçado a preocupação com a volatilidade nos ativos brasileiros.
O Ibovespa, principal índice da bolsa de valores brasileira, registrou uma queda superior a 2,5% em 11 de agosto, encerrando o pregão na região dos 167 mil pontos. Esse movimento contrasta com o início de 2026, quando o índice começou em aproximadamente 160,5 mil pontos e avançou rapidamente nos primeiros meses do ano, impulsionado por forte entrada de recursos estrangeiros.
O JPMorgan, um dos maiores bancos do mundo, já vinha alertando desde maio sobre a elevada volatilidade nos mercados brasileiros devido às eleições presidenciais de 2026. A instituição adotou uma postura mais cautelosa em relação ao real, citando o crescimento do risco eleitoral doméstico. Essa percepção de incerteza tem levado os investidores a reduzirem suas posições antes mesmo de conhecer o desfecho das eleições.
“O dinheiro possui uma característica simples: quando aumenta a percepção de risco, ele procura outro lugar,” afirma um analista do mercado financeiro. A saída recente de investidores estrangeiros pode ser temporária, mas ignorar o sinal seria um erro. A economia brasileira precisa oferecer segurança suficiente para que empresas invistam e o capital produtivo encontre razões para permanecer no país.
As tensões com os Estados Unidos e a saída de investidores estrangeiros são sinais de alerta que não podem ser ignorados. Para superar esses desafios, o país precisa adotar uma abordagem estratégica e previsível, capaz de transmitir confiança aos investidores e parceiros internacionais.



