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27 maio 2026

Sóstenes Cavalcante anuncia destaque do PL para apoiar a escala 4×3

PL decide apoiar a escala 4x3 e promete destaque em plenário, gerando tensão com o governo e mudando cenário do debate sobre jornada

Em discurso na Câmara e em publicação na rede social X, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido, informou que o PL vai apresentar um destaque ao texto em votação para que o Congresso analise a escala 4×3, definida aqui como quatro dias de trabalho e três dias de descanso. A declaração foi feita na noite de terça-feira (26) e marca uma reviravolta no posicionamento público da sigla. Ao anunciar a estratégia, o parlamentar afirmou que a hora do voto em plenário será o momento para que cada deputado mostre sua posição sobre o tema.

O anúncio ocorre num ambiente político tenso, porque até então o PL havia defendido uma emenda que permitia ampliar a jornada para até 52 horas semanais e estabelecia uma transição de até 10 anos para chegar à jornada de 40 horas. A nova orientação do partido representa, portanto, uma mudança significativa de discurso. A declaração de Sóstenes também teve tom de provocação: ele desafiou quem se diz defensor dos trabalhadores a confirmar essa posição no voto, jogando pressão sobre o governo federal, que havia sinalizado receio de que uma redução para 36 horas em quatro dias seria uma alteração demasiadamente abrupta.

Mudança política e calendário parlamentar

A estratégia do PL aparece no momento em que o texto do relator já foi lido na comissão especial, mas a votação foi adiada em razão de um pedido de vista, empurrando a decisão para quarta-feira (27). Segundo a agenda prevista, o parecer poderá seguir ao plenário da Câmara no mesmo dia da comissão ou no dia seguinte. Nos bastidores, membros do Planalto interpretaram a manobra como tentativa de constranger o governo e de deslocar o foco do debate técnico para o embate político. A movimentação do PL também se relaciona com acordos anteriores: na quinta-feira (25), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), selou entendimento com o presidente Lula para acelerar a tramitação da proposta, ampliando a negociação entre Executivo e Legislativo.

O conteúdo do parecer e os pontos centrais

O relatório do deputado Léo Prates (Republicanos-BA) funciona como um compêndio sobre o tema: são 76 páginas que passam pela história das jornadas de trabalho, estudos de produtividade e reflexões sobre saúde mental. No mérito, o relator propõe a redução da jornada para 40 horas semanais e adota a escala 5×2 como regra geral, rejeitando a implementação imediata da escala 4×3 — que, segundo ele, é ideal em tese, mas incompatível com a conjuntura econômica atual. O parecer busca equilibrar a pressão social contra a escala 6×1 e as preocupações do setor produtivo quanto a impactos de custo e emprego.

O paradoxo brasileiro

O relatório destaca, em um capítulo batizado de paradoxo brasileiro, dados que mostram a complexidade do tema: cerca de 74% dos contratos celetistas estão formalmente sujeitos a jornadas de até 44 horas, ao passo que o modelo 5×2 já é predominante em 66,8% das relações formais. Ainda assim, a escala 6×1 permanece em aproximadamente 14,8 milhões de vínculos. O documento também traz análise sociodemográfica, apontando que jornadas mais extensas recaem desproporcionalmente sobre jovens, mulheres, trabalhadores negros e pessoas de baixa renda, com 80% desses vínculos acima de 40 horas concentrados em salários de até dois mínimos, enquadrando a questão como problema de justiça social e saúde pública.

Negociação coletiva e propostas de transição

Para atenuar riscos econômicos, o relator propõe mecanismos de transição negociada: a Constituição fixaria a regra geral das 40 horas, mas permitiria adaptações setoriais por meio de convenções coletivas, além de prever prazos e instrumentos para recompor o equilíbrio econômico-financeiro em contratos públicos, concessões e PPPs. O texto cita estudos de entidades como Fiemg, FecomercioSP e FGV sobre impactos potenciais, e busca dar margem para ajustes em pequenos negócios e setores essenciais, ao mesmo tempo em que se nega a autorizar expansões como jornadas de até 52 horas, o que, na avaliação do relator, comprometeria o princípio constitucional de limitação da jornada.

O que está em jogo e os próximos passos

A mudança de rumo anunciada pelo PL altera o tabuleiro político e pode forçar decisões definidoras no plenário. Se a Câmara aprovar o parecer ou um destaque que altere o texto, a matéria seguirá ao Senado. Enquanto isso, o debate envolve argumentos jurídicos, econômicos e sociais: de um lado, demandas por mais qualidade de vida e proteção; de outro, preocupações empresariais sobre custos e competitividade. Com a votação adiada para quarta-feira (27), parlamentares e representantes do governo terão uma janela curta para costurar acordos e calibrar o texto que definirá os contornos da jornada de trabalho no país.

Autor

Edoardo Vitali

Edoardo Vitali coordenou a cobertura da reestruturação do mercado de peixe de Palermo, defendendo a linha editorial sobre transparência fiscal. Chefe de redação da economia, traz para a redação uma abordagem pragmática e um detalhe pessoal: ainda guarda cadernos das reuniões na Sala delle Lapidi.